Já foi rotulado? Não, não rotulado no sentido de ser envolto por uma embalagem, tais quais aqueles vidros de conserva cujo conteúdo é constituído de palmitos fresquinhos e apetitosos. O rótulo ao qual me refiro é aquele quase apelido que as pessoas que não te conhecem lhe dão, a fim de facilitar a identificação.
Os rótulos são muito úteis em certas ocasiões. Por exemplo, numa rodinha de fofocas, quando você quer falar algo sobre o primo do amigo do irmão da sua namorada, é tão mais fácil dizer “o-gay-enrustido”, do que tentar explicar a árvore genealógica da família da sua cara-metade. É isso, o governo, ao invés de fazer aquela merda toda que estão fazendo no Congresso, deveria criar uma lei amparando o direito de rotular. Facilitaria a vida de muita gente: advogados, jornalistas, publicitários etc.
Mas (sempre tem um “mas”), como diz o velho ditado, “pimenta nos olhos dos outros, é refresco”. E quando somos nós os rotulados? Qual seria sua reação? É fato que o normal, e o que acontece na maior parte dos casos, é a pessoa que recebe um rótulo jamais desconfiar de que está sendo estereotipada por outrem. Se por outro lado, em virtude de algum desvio da ordem natural das coisas, essa conversa cai no ouvido do maior interessado, o que ocorre?
Há os mais estressados, que já querem logo decidir a pendenga no braço, no “muque”. Bando de animais, diga-se de passagem. E mal sabe o bestão que vai ganhar outro rótulo: o “esquentadinho-que-gosta-de-quebrar-tudo”. Babaca, tem que se foder mesmo. Passando para o próximo tipo, temos aquele que não gosta, mas também não faz nada pra evitar. Fica ali, no seu canto, balbuciando sílabas ininteligíveis, e só. É o cara insosso, sabe? E por fim, o mais legal, aquele que incorpora o rótulo, e cai na risada com quem o rotula. E é assim que as coisas deveriam ser. Ora, se te rotularam, algum motivo houve. Ninguém vai se referir a você como careca, se você ostentar uma vasta cabeleira. Só te chamarão de careca se realmente sua cabeça ter se transformado num aeroporto de mosquitos! É óbvio, uma verdade que só não vê quem não quer. E, como diz outro ditado, “pior cego é aquele que não quer ver”.
Fui picado por um maldito mosquito da dengue. Já faz algumas semanas, mas, no Tiro de Guerra, boa parte dos atiradores se refere a mim como “o-cara-que-pegou-dengue”. Ora, o que há de mais nisso? Eu peguei mesmo, e acredite, é uma droga. Quando estudava no colegial, era tido como o “nerd-CDF”. Não sei se era eu o CDF, ou se os que me tachavam assim que eram muito atrasados; a verdade é que, de estupendamente inteligente, pré-requisito essencial a um CDF, eu não tenho nada. Sou regular, nada fora de série.
Rótulos, rótulos… Deixe-os em paz, afinal de contas, quem rotula, um dia há de ser rotulado.
Neste dia, em outros anos...
- A rigidez cega da Justiça (2007)
- A Copa da Alemanha (2006)
9 comentários até agora ↓
1 Octávio // 13 Jun, 2005, às 1:16 pm
Bom texto GhediN! Na loja de carros costumamos usar rótulos para nos referimos a clientes….rs….Abraços
2 Israel Barros // 13 Jun, 2005, às 5:28 pm
Tipo quando alguem grita: “oh cabeçudo”? hehehehe. Eu sou de certa forma a favor dos rotulos. Ajuda a classificar bem as coisas, cabeçudos, carecas, gordinhos, baixinhos…
3 Thiago Ramari // 14 Jun, 2005, às 12:27 am
Olá Rodrigo, como vai?
Bom, de fato, é muito mais fácil se referir a alguém através dos métodos de rotulação do que através de complicadas explicações a respeito da origem da pessoa em questão. Aliás, do mesmo modo que você, eu sempre fui taxado (até hoje, na universidade inclusive) de “nerd-CDF”. E olha que eu também não tenho nada demais, nenhum nível de quociente intelectual fora dos padrões comuns. E dou risada disso hoje. Não me importo com este tipo de coisa (e nem há porquê).
Para finalizar, gostaria de lhe parabenizar pelo seu site, que está excelente, agradecer-lhe pela visita no blog do qual eu faço parte, CONEXO, e pelo comentário super inteligente e interessante que fizeste. Volte lá sempre que quiser!
Thiago Ramari
4 Selph // 14 Jun, 2005, às 12:47 pm
Eu já fui o primeiro tipo. Ainda bem que passei direto por terceiro. As vezes, uma risada bem colocada desarma qualquer gozação…ou rótulo.
5 Andrei Theodore // 14 Jun, 2005, às 4:42 pm
Olá!
Tava lá no WinAjuda(sou o skandisk lá do Forum, a proposito) e vi o link para o seu blog e resolvi da uma passada pra ve.
Realmente parabéns, textos excelentes, não li todos mas os que li são de muita qualidade, gosto muito de ler e achar blogs com textos bons é dificil(pretendo fazer um, mas algo mais simple, só pra treinar a escrite -.-”).
Pretendo voltar aqui para ler mais. Continue assim, sucesso…
6 [Agnes] // 14 Jun, 2005, às 8:10 pm
Muuuuuuuuuuuitas vezes.
Milhares.
7 Ane Carolina Pacola // 15 Jun, 2005, às 12:13 am
Pois é caro amigo Rodrigo…
À respeito do seu comentário no nosso blog CONEXO (no texto sobre o rap)venho tristemente dizer-lhe que bandas maravilhosas como White Stripes já tiveram músicas remixadas por um DJ. “Seven Nation Army”, por exemplo. Este mesmo DJ fez o que quis com a música incluindo novos arranjos. Agora já tá até na moda ouvi-la em boates (como já disse, remixada em vários estilos os quais não tenho a capacidade mental de entender) e em carros (no volume máximo)de boyzinhos que insistem em dizer que curtem a banda apenas pelo “novo” arranjo musical que este mesmo DJ infeliz reproduziu.
Contudo, o que me incomoda mesmoooo é o fato de que essa moda já pegou e está mexendo até com músicas de bandas (que pra minha tristeza)nem existem mais… como Doors… tem um safado de um rapper americano que teve o mal gosto de “cagar” (desculpe o termo) em “Riders on the storm”. POis é… ninguém escapa da maldição da industria cultural…
Descontente e, assim como você, inconformada…
Ane Carolina
8 Raquel // 15 Jun, 2005, às 4:32 pm
Será que as pessoas não conhecem um negócio chamado, nome? Quando fica complicado definir a árvore geneológica do indíviduo ai sim, faz-se um complemento…rs Mas sem maldade, acho isso feio.
Beijos
9 Maitê // 15 Jun, 2005, às 5:07 pm
Eu odeio rótulos, juizos de valor. Tipo, eu usava óculos, me chamavam de quatro olhos, me enchiam o saco… E vc se curou bem da dengue? Ah, pode copiar e responder…
Deixe um comentário