Crentes e o fim dos tempos
Vejamos: tsunami na Ásia, furacões nos Estados Unidos, e agora, um terremoto de proporções descomunais no Oriente Médio. Seriam estes sinais que prenunciam o fim dos tempos?
Vez ou outra, aparece aqui no portão de casa uns crentes, com Bíblias e panfletos debaixo do braço, a fim de aporrinhar pregar a Palavra. Sou cristão, mas ultimamente estou sendo um cristão vagabundo, do tipo que vai à Igreja uma vez a cada dois meses, e que só reza antes de dormir quando lembra (e isso é raro). Pelo menos tenho consciência de que estou errado, e pretendo o quanto antes mudar este quadro. Enfim, quando os crentes aparecem aqui numa hora em que eu estou sem nada pra fazer, batemos longos papos sobre as profecias bíblicas. É engraçado como, segundo eles, tudo faz sentido, e os fatos que nos circundam atualmente já estavam previstos na Bíblia. Fatos estes que, ainda segundo eles, antecedem o dia do Julgamento Final, do Apocalipse.
Certas coisas da Bíblia eu encaro com um certo ceticismo. Não é rebeldia sem causa, nem pra me aparecer; é que algumas partes dela realmente não são lógicas. Uma que eu sempre questiono para os crentes, e que até hoje nenhum conseguiu me responder, é sobre a tal vida eterna. Segundo eles, depois do Julgamento Final, só restarão na Terra os que merecerem, os Flanders da vida. Estes, terão vida eterna, bem como os que hão de nascer dali pra frente, já que, a partir de então, o mal não mais existirá neste mundo. Aí vem meu questionamento: seguindo essa linha de raciocínio, chegará uma época em que o mundo estará superlotado! Se no inferninho que é o planeta hoje já tem gente demais, imagina se ninguém morrer! Tá, alguns alegam que, ao ser atingido determinado número de pessoas, nós não nos reproduziremos mais (e o sexo? Será uma coisa profana e sem serventia divina?). Mas, e o célebre ensinamento do Pai, o “crescei e multiplicai-vos”? E o relato de dez entre dez mulheres, de que dar à luz uma criança é o gesto mais sublime da vida, o supra-sumo da existência feminina? Como fica? Pois é, ninguém me respondeu ainda.

“Oi, eu sou o Flanders, vou viver eternamente!”
Eu acredito que a morte é algo natural, também divino, e ponto final. Definitivamente, eu não quero viver eternamente. Seria um saco.
Este é só um exemplo de profecias que eu considero furadas na Bíblia. Não, não sou herege, só acho que nem tudo que reluz é ouro. Explico: a Bíblia tem sim um valor incomensurável, e quem se dispõe a lê-la, certamente encontrará respostas para suas dúvidas e angústias. Entretanto, levá-la ao pé da letra, interpretar suas passagens literalmente, é algo que não bate. Muita coisa dali pode e deve ser aplicada à nossa vida, utilizando a analogia. As parábolas são explícitas neste sentido, mas além delas, outras coisas também são subentendidas, e devem ser interpretadas com a cabeça mais aberta.
Antes que eu perca o fio da meada, voltemos ao fim do mundo. Não sei se por eu ter passado a dar mais atenção a eles, ou se realmente o fim está próximo, os crentes que têm aparecido aqui em casa só falam no fim do mundo! É coisa de louco… Como eu acho que as profecias bíblicas em relação a isso também são infundadas, explico cientificamente os motivos para tais desgraças naturais, citadas no início deste texto: a ação indiscriminada do homem ante a natureza. Infelizmente, nenhum crente acreditou muito na minha teoria…