Viagem ao inferno

26 Out, 8:41     Direito, Passeios e viagens

Na última quinta (20/10), uma excursão organizada pelo meu professor de Direito Penal rumou para Maringá, cidade próxima à minha, com o intuito de visitar a penitenciária, a Vara de Execuções Penais, e a cadeia pública.

A idéia era ver como funciona, na prática, a execução de penas, diferenciação de regimes, prisão provisória, institutos da pena, enfim, ver ao vivo tudo aquilo que havia sido explicado em sala de aula. Não pensei duas vezes para me inscrever na excursão, e às oito horas da manhã de quinta última, lá estava eu, dentro do ônibus, pronto para embarcar numa das viagens mais marcantes da minha vida.

A viagem foi curta, chegamos lá próximo das nove e meia. Nossa primeira parada foi na PEM, a Penitenciária Pública de Maringá, que apesar do nome, fica na cidade de Paiçandu. Paradoxos geográficos à parte, a penitenciária impressiona logo de cara, dada a sua magnitude arquitetônica. Muros altíssimos, com várias guaritas espalhadas na sua extensão, protegem o local. Na entrada, muito rigor: somos todos obrigados a deixar o RG, podendo resgatá-los na saída.

Fomos recepcionados pelo vice-diretor. Após um breve histórico do local, bem como a explicação de como as coisas funcionam ali, o carcereiro Sílvio assumiu. Algumas recomendações foram dadas, e todos os objetos pessoais, incluindo aí relógios, carteiras e chaves, foram deixados no guarda-volumes.

Para quem nunca foi numa, a organização desta penitenciária impressiona. Fomos avisados que a PEM é um modelo, e de fato, é. Tudo funciona, há muitos funcionários, todos aparentemente bem treinados. A política interna também é muito eficiente, e interessante: o preso, quando chega, vai para a “pior” galeria. Pior entre aspas, já que, na essência, todas são iguais. O que faz uma ser melhor que a outra são as regalias que os presidiários têm na medida em que passam de nível. E assim, visando uma promoção de galeria, mantem-se a ordem ali. Há várias oficinas de trabalhos manuais e industriais também, além de uma horta. A educação também está presente, e muito bem, diga-se de passagem. Além do ensino fundamental e médio, há cursos profissionalizantes o ano todo. Tudo isso, trabalho e estudo, são usados para remir pena, ou seja, diminuir a pena.

A segurança, juntamente com a organização e a disciplina, é o ponto-chave do sucesso da penitenciária. E pensar que nenhum carcereiro usa armas lá dentro… Há grades para todos os lados, e nunca dois portões são abertos simultaneamente. Em certos momentos isso foi um problema para a turma da faculdade, já que, devido ao número de acadêmicos, alguns lugares eram realmente apertados para todos. Mas enfim, pela segurança, tudo se justifica.

No momento da visita, os presidiários tomavam sol. Essa coincidência foi boa por dois motivos: consegui vê-los fora das celas, e basicamente eles fazem três coisas: lêem, jogam futebol (todas as galerias têm quadras, sendo que a “melhor” tem até balizas) ou andam. Essa última atividade é deveras curiosa, já que eles ficam andando de um lado para o outro, constantemente, parecendo, ahn, loucos. Mas depois de ver as celas (o outro bom motivo da coincidência supracitada), dá pra entender: só ali eles podem esticar as canelas, fazer algum tipo de exercício, enfim. As celas são bem feitas, e não há super lotação. Todas contam com beliches feitas em cimento, e cada preso tem sua própria cama. Um detalhe legal é que todas as celas têm televisores! Notei também várias Bíblias, praticamente todas as celas tinham pelo menos uma.

Por fim, mas não menos emocionante, demos uma volta nos muros da penitenciária. É muito alto, e o perímetro, é enorme.

Dali, fomos a um restaurante de beira de estrada a fim de matar a fome. Fiquei tentado a comprar um doce de leite mineiro com goiabada… Ah, é, voltemos à viagem.

A próxima parada foi o fórum, mais precisamente, a Vara de Execuções Penais, ou VEP. Conversamos com a promotora e com o juiz. Ambos comentaram temas relacionado às penas, regimes etc., fizeram uma síntese da matéria que já havia sido esmiuçada em vários encontros na sala de aula. Visita muito válida, principalmente para testar o conhecimento, sentir se ele foi absorvido pelo cérebro de fato.

A última parada, a mais aguardada e que reservava as maiores surpresas, foi na cadeia. A diferença entre a cadeia e a penitenciária é que na primeira, cumpre-se a pena provisória, ou seja, é onde a o réu aguarda o trânsito em julgado do processo ao qual responde, ao passo que na penitenciária ele cumpre a pena a qual fora condenado no processo, caso o regime seja o fechado.

A diferença entre a penitenciária e a cadeia já começa na recepção. Não que ali fosse pior que a outra; a diferença está no semblante do delegado-chefe, que, ao invés de ressaltar as qualidades e virtudes da cadeia, falou das dificuldades que ele e sua equipe enfrentam. Compreensível. Depois dessa breve introdução feita pelo delegado (que, aliás, tem um passado de glórias, e faz jus à posição que ocupa), passamos para a área da cadeia.

Aguardarmos um pouco, até o professor de Direito Penal vir nos chamar para entrar.

Pra começo de conversa, apenas dois carcereiros tomam conta de mais de trezentos e cinqüenta presos, aglutinados num espaço onde só cabem cento e cinqüenta. Pensando friamente, isso é loucura! E, de fato, é mesmo, ainda que existam alguns presos de confiança que ajudem. Antes das galerias, há uma cozinha e a área adminsitrativa. Como são construções novas, está tudo bem limpo e ajeitado. A parte boa pára por aí.

Ao entrar nas galerias, a primeira área é a de menores. O Estatuto da Criança e do Adolescente diz que, em caso de infração cometida por menores, estes podem ficar detidos na cadeia por até quarenta e cinco dias. Ali, havia sete menores, numa cela separada. Não consegui vê-los, já que os corredores eram estreitíssimos. Adiante, víamos o “seguro”, uma outra cela à parte onde ficavam os presos jurados de morte, ou que cometeram crimes bárbaros, como estupro. Eles ficam ali porque, se se juntarem aos outros, serão mortos, sem dó, nem piedade. No momento em que estávamos ali, os presos do seguro descascavam alho. Meio difícil lembrar, ou imaginar o fedor de suor (dos presos) com alho. Mas o pior ainda estava por vir.

Finalmente, íamos ver a cadeia propriamente dita. Dá pra resumir aquele lugar numa só palavra: inferno. Desde este dia, venho tentando lembrar, ou mesmo imaginar algum lugar que possa ser pior que aquele. Em vão. Ao chegarmos na entrada da galeria, era possível ver um preso sem camisa e com queimaduras no corpo. Segundo um colega, aquilo fora feito pelos outros presos, com uma mistura de água, vinagre, sal e outros condimentos, esquentada com os fios do chuveiro, e jogada no preso em questão enquanto este passava no corredor. A lei da cadeia é dura… Passando essa primeira parte, já era possível ver as celas, e mais ainda, sentir o fedor que dali vinha. Deus, aquele lugar é muito, muito, mas muito fétido! É algo indescritível, incomparável com qualquer outro cheiro desagrádavel que eu já tenha sentido. E olha que o corredor está repleto de exaustores! Ainda assim, o cheiro é de embrulhar o estômago. A visão não era menos ruim: um lugar escuro, úmido, com as fiações aparecendo no teto, todas cheias de remendos. A parede oposta às celas, além dos exaustores, ostentavam roupas e mais roupas, além de calçados dos presos. Não sendo preconceituoso, mas sim realista, é difícil manter algo limpo ali dentro, e isso se reflete nas roupas, que mesmo “lavadas”, fediam. Do lado das celas, o chão estava forrado de lixo produzido pelos presos. Sobrava apenas um pequeno caminho para que pudéssemos transitar ali dentro.

Olhando dentro das celas, a coisa só piorava. A sensação que se tinha era de que não havia espaço vago ali, nem para uma mosca a mais sequer. Em cada cela, que podia acomodar, se não me engano, quatro presos, havia dez. Era uma amontoado de homens, todos com um fedor pior que o do ser humano em estado de putrefação, sem camiseta, se espremendo entre as beliches. Havia objetos pessoais em todo lugar, até pendurado nas paredes. Estas, eram forradas com posteres. À esquerda havia uma privada, daquelas rasteiras, bem comuns em banheiros públicos masculinos. Neste lugar inócuo e sem privacidade alguma eles tinham que fazer tudo: urinar, defecar e até tomar banho. Não há dia, nem noite para eles. Eles se revezam nas camas para conseguirem dormir algumas horas. Toda a atmosfera do lugar, somada ao aspecto grotesco dos presos, fazem daquele o lugar mais deprimente que eu já visitei na vida. Se parar pra pensar bem, acredito ser preferível a morte a ficar anos ali, naquele inferno.

Um dos presos, durante nossa passagem, disse que eles estavam fazendo papel de “animais de zoológico” para nós, os acadêmicos de Direito. Concordo com ele, não pelo fato de terem sido observados, mas sim pelo estado em que se encontram; é difícil encontrar traços de humanidade naqueles seres desgraçados.

Depois da visita, pegamos o ônibus e voltamos para Paranavaí. Seria interessante todos visitarem algum dia uma cadeia. Depois disso, aposto que, se não todos, a maioria vai pensar duas, três, quatro vezes antes de cometer um crime. Sempre segui essa máxima, mas depois de ver e sentir como é uma cadeia, me apego a ela com mais veemência: “o crime não compensa”. Não compensa mesmo.

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18 Comentários

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  1. Rafael Fermiano
    26 Out, às 10:57

    Caralho!!!
    Desculpa a palavra forte, mas não vi outra maneira de me expressar…
    Primeiramente, parabens pela descrição, posso dizer que senti o fétido vapor subindo dos corpos daqueles “desgraçados” da cadeia.
    Já, analisando a penitenciaria, o que posso concluir é que a melhor opção para algumas pessoas é cometer crimes, afinal assim têm uma boa educação, cursos profissionalizantes e demais beneficios. Logo o crime não compensa, mas às vezes leva a um caminho melhor


  2. Faby
    26 Out, às 11:48

    Pois é, se a justiça no Brasil fosse mais rápida, as cadeias não precisavam ser tão lotadas. De vez em quando vejo algumas reportagens no Paraná TV, mas, sério mesmo, nunca tive vontade ver isso de perto.

    Sua descrição foi suficiente: não vou ser criminosa…


  3. Menina-Prodígio
    27 Out, às 15:01

    A punição da privação da liberdade é horrível mesmo… Porém, para que as pessoas não mais cometam crimes, você não acha que é necessário acabar com a certeza da impunidade que alguns têm?


  4. jun1or
    28 Out, às 00:56

    Apesar de ser gigantesco, li todo o texto. Já vi várias reportagens e documentários sobre o sistema prisional brasileiro mas acredito que só estando presente para se ter uma idéia da situação.
    Concordo que o crime não compensa, mas o que eu acho pior é que as pessoas que ficam presas nessas situações não irão ter a mínima chance de voltarem para a sociedade regeneradas. Acho que não podemos lutar contra o crime apenas na base do medo de ir para a cadeia.


  5. Tuca
    28 Out, às 16:33

    O criminoso, nessas condições, entra poodle e sai pitbull da cadeia. De volta pra rua, depois de mais uma fuga, não há carrocinha que o pare. Então, salve-se quem puder, de preferência, em outra prisão, a da nossa casa mesmo, envolta por cercas elétricas e sistemas complexos de alarme. Ah, que inveja dos suecos e similares…


  6. Selph
    28 Out, às 16:34

    Deve ser por isso a revolta geral que de vez em quando estoura por uma cadeia dessas.

    Interessante é o fato de saber que cada preso custa R$ 300 por mês para o Estado, essa grana vai aplicada em que? Comida apenas?


  7. creeedoooo
    28 Out, às 17:25

    Vc faz direito? Agora ta explicado pq vc é taum chato!!!!


  8. Ahrenss
    28 Out, às 21:35

    Sua descrição foi muito boa!
    Deu pra sentir como as coisas devem ser lá dentro, é tenebroso pensar que alguem passe anos em condições como essas que você descreveu.

    Parabens pelo texto!

    []s


  9. Maitê
    30 Out, às 19:51

    Pois é, e ainda tem gente que quer votar nesses malditos políticos, que constroem espaços que são a escola do crime organizado…

    Abs


  10. Fernando Cesar
    31 Out, às 12:59

    Ae vc fez um tópico num fórum, dando links e explicações de várias extenssões do Firefox, mas todas q eu tento basixcar dá 404, da uma olha e dps me responder por email ok?

    O tópico é esse:

    http://www.webtutoriais.com/open.php?cut=1045

    []’s


  11. Andy
    31 Out, às 19:54

    Olha, você realizou um dos meus sonhos enrustidos: conhecer a cadeia. Eu tenho lá uma vontadezinha [pequena, oras!] de conhecer esse “inferno” [como você mesmo disse]. Mas é só para conhecer mesmo, porque deve ser foda viver lá dentro.

    Mas valeu como experiência pra você. A gente sempre tem de tirar um proveito dessas coisas.

    Bom, é isso.

    Valeu por ter passado no meu blog!!!


  12. Spectrun
    02 Nov, às 19:34

    O.o


  13. Patrícia Köhler
    05 Nov, às 05:06

    Rodrigo, seu texto tá excelente. Tinha lido outro dia e estava fazendo um comentário enooorme, mas tive problemas aqui e meu micro desligou na hora. Fiquei tão frustrada e com raiva que não voltei mais.
    Adorei a sua descrição da cadeia e do sistema penitenciário. Como o Tuca disse, que inveja dos suecos…
    Infelizmente a quase certeza de impunidade faz com que tantas pessoas busquem o crime para se manter… isso é péssimo.
    Aqui em São Paulo ando numa paranóia constante, a ponto de ter sobressaltos mesmo quando alguém me aborda na rua. E pelo jeito não sou só eu. Outro dia eu estava perdida numa avenida bem longe da minha casa e resolvi abordar o motorista de um carro à minha frente. Estávamos parados num farol numa rua meio escura e em que passavam muito poucos carros. Como ele não percebeu minhas jogadas de farol e nem minha leve buzinada, tomei uma atitude mais drástica (eu realmente fiquei com medo de ficar ali perdida numa rua em que não passava quase ninguém, então quis aproveitar a presença daquele carro)… saí do carro, me aproximei do carro da frente e bati no vidro. Era uma caminhonete meio alta, tipo uma Ranger ou Dakota e eu, sendo baixinha, fiquei apenas com a testa ali, dando talvez a impressão de ser um pivete mesmo. Te juro… o senhor quase morreu do coração. Pedi um milhão de desculpas e expliquei toda a situação e o meu receio do que poderia acontecer se eu não pedisse ajuda àquele senhor.
    Depois ele entendeu tudo, se refez do susto e foi super solícito. Nós dois falamos mesmo do quanto a população anda paranóica.
    Eu sofri dois assaltos em menos de dois meses (em janeiro e em março deste ano), ambos no trânsito e por crianças/adolescentes.
    Sei que no máximo vão para a Febem e logo mais fazem rebeliões e estão nas ruas novamente. Com mais raiva ainda da sociedade. Triste isso, muito.
    Bom, eu me estendi bem mais do que devia, desculpe. Perdi o sono. :)
    Mas o recado era este: seu texto está realmente primoroso, parabéns. E concordo que o n de comentários é quase sempre inversamente proporcional ao tamanho dos textos. Isso eu confirmo sempre no blog.
    Um beijo.


  14. Rinaldo Campos
    06 Mai, às 15:21

    Caro Rodrigo,
    Quando seu professor se dispõs a levar sua turma ao presídio, certamente já havia tratado com a Direção.
    Assim, os problemas foram escondidos, os torturados separados. Os presos não confiam em visitas de estudantes de Direito, portanto você jamais sairia de lá com uma má impressão.
    Uma grande fatia do custo de cada preso (60%) é desviada pela direção do Presídio> Aí, inclua o Judiciário e os diretores. Mais ladrões são os que cuidam dos presos os próprios presos.
    Peça para fazer uma visita de surpresa, e conversar a sós com os presos, e você jamais conseguirá.
    Não se iluda. O Sistema está podre, e começa pelo STJ.
    Abraços


  15. Rinaldo Campos
    06 Mai, às 15:22

    Comentário anterior


  16. Airbus 320
    18 Jul, às 11:42

    Caramba!!

    Cara você viajou no mesmo aviao q caiu em SP o Airbus-320!!

    Ahh Foi da hora sua viajem!!

  17. [...] Não fiquei chocado, não fiquei extasiado, não fiquei deslumbrado com o Capitão Nascimento e sua trupe. Nada disso. Fiquei deprimido. Ou melhor, apreensivo. Preocupado. Enfim, com esses sentimentos incertos e, em determinados casos, como este, sem muita justificativa. Durante a exibição do filme, tentei entender o que leva jovens da classe média às drogas; pensei também em qual o futuro do menino que dedura o “fogueteiro”; no sangue frio, tanto dos bandidos (especialmente destes), quanto dos mocinhos; e também em como pessoas, seres humanos, conseguem ser coniventes com uma realidade tão… nojenta e repugnante como aquela. Favela, corrupção, nojeira, a podridão da humanidade, concentrada num só lugar. Lembrou-me a cadeia. [...]

  18. [...] já visitou uma cadeia sabe o inferno que é aquilo. Arrisco dizer ser o pior lugar do mundo - e isso não é uma figura de linguagem. As instalações [...]

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