Alma Gêmea
É incrível o poder de persuasão que as novelas têm no Brasil. As músicas que compõem as trilhas sonoras logo viram sucesso, os produtos que os atores usam em cena idem, as gírias, os gostos, enfim, o dramaturgo brasileiro tem uma poderosa ferramenta manipuladora em mãos. Mas, mesmo com todo esse poder, ele não consegue se desvencilhar de clichês bobos, passagens patéticas, e estórias enfadonhas, problemas estes comungados por todas as novelas do mundo, desde as sofríveis mexicanas, até as ridículas brasileiras. Uma das novelas da Rede Globo no ar atualmente, a Alma Gêmea, quebra todos os recordes de bobagens veiculadas em rede nacional. Seria triste, se não fosse cômico.
Dá pra escrever muito sobre essa novela. Quero dizer, sobre as capenguices dessa novela. Entretanto, para que este não se transforme num texto indigerível, me limitarei a dissertar sobre os absurdos mais contundentes. O maior e mais explícito é a própria sinopse da trama. A “alma” do grande amor do mocinho volta no corpo de uma índia, e esta vai atrás do grande amor dela. Ou seria da defunta? Como já citado no parágrafo anterior, o dramaturgo não tem limites, e influencia a massa. Logo, não me espanto mais quando vejo quaisquer pessoas divagarem sobre essas sandices de alma passada, reencarnação e espíritos. O que me espanta é a Rede Globo permitir que tamanha besteira vá ao ar.
Os protagonistas são hilários também. O mocinho, como é o nome dele? Ah sim, o Rafael (obrigado!), não envelhece! Passaram-se vinte anos, e a única coisa que mudou nele foi a barba e uns poucos cabelos grisalhos. Ou ele é um highlander, ou fez plástica. A índia, Serena, tem sotaque italiano! Deus, a primeira índia latino-italiana da história! E a vilã, a Cristina? Acredito que o escritor da novela seja fã de Star Wars. Não dá pra não crer nisso quando a mãe dela, a Débora, dá conselhos maquiavélicos para sua querida filha. Além da aparência nas ações, a velha é a cara do Darth Sidious.
As sessões de regressão que a Serena faz também são hilárias! Quem dera se houvesse mais pessoas como o Julian. Inquéritos, processos, juris, tudo isso seria dispensável; bastaria uma sessão de regressão e pronto, o assassino seria descoberto. A polícia pouparia tempo, o Estado dinheiro, e a sociedade viveria mais tranqüila, sabendo que todos os criminosos estariam atrás das grades. Os bate papos da índia latino-italiana com o espelho, ops, quero dizer, com a sua alma, são interessantíssimos! Veja que legal, conversar consigo mesmo. Eu sempre quis fazer isso, afinal, quem mais crítico em relação a nós do que nós mesmos? Acredito que, tornando-se comum esta prática, o “desconfiômetro”, cada vez mais escasso nos tempos atuais, voltaria a estar na moda. É tudo tão simples, a realidade que trata de complicar as coisas.
Chega, chega, chega! Estou enojado de mim mesmo, tamanha as besteiras que tive a capacidade de escrever neste espaço. E sim, prometo que vou parar de assistir essa merda.