Rodrigo Ghedin

O homem não é uma ilha

Uma velha e sábia frase diz que o homem não é uma ilha. Trocando em miúdos, essa frase diz, metaforicamente, que ninguém vive isolado. No mundo contemporâneo, ir contra essa frase é quase uma missão impossível: mais de seis bilhões de pessoas povoam a Terra, e as formas de se comunicar são incontáveis.

A básica, e acredito mais utilizada, é a fala. Aliás, deve ser esta, também, a mais antiga: se os documentários da BBC tansmitidos no Fantástico estiverem corretos, desde os primórdios nossos antepassados se comunicavam através de grunhidos, que em todo caso, são sons que provêm da boca, logo, se não forem, podem ser equiparados à fala. Falar é bom, porém exige um certo treinamento. Há alguns anos, travava ao exercer a fala com pessoas que não figurassem meu círculo de amizade. Isso era terrível… Enfim, consegui melhorar um pouco, mas ainda peco em alguns pontos, que, espero, consiga aperfeiçoar com o decorrer dos anos. A fala ainda se desmembra nos meios de comunicação, como o telefone, por exemplo. Interessante como essa leve alteração pode vir a ser tão crucial no exercício dela… A falta de contato visual, de ter a reação do interlocutor em tempo real, meio que me aflige. Sou péssimo ao telefone.

A escrita me agrada imensamente. Nela a comunicação flui plenamente, e aspectos subjetivos, como voz desagradável, ou problemas de dicção, se esvaem. Paralelamente, exige-se mais do conhecimento do que da habilidade de se comunicar, e é aí que vejo a grande vantagem da escrita: expõe, de forma crua, as reais capacidades intelectuais de cada um. Evidente que não se pode determinar o potencial das pessoas simplesmente com base na sua capacidade de escrita, mas que este é um bom ponto de partida para tal, isso é. Fora as vantagens já mencionadas, na escrita tenho toda a calma do mundo para pensar, repensar, retificar erros, enfim, fazer uma análise crítica e rígida sobre o que quero passar para os demais. As possibilidades de erros e gafes caem drasticamente (embora ainda existam).

Instigante, interessante e obscura… Esta é a linguagem corpórea, gestual. Pende muito para o sentimentalismo, e talvez por isso mereça os adjetivos descritos no início deste parágrafo. Um olhar, um sinal, um gesto aparentemente bobo, inocente, mas que, dependendo das circunstâncias em que se dá, e de quem ele vem, é profundo. Fala mais que mil palavras. Aqui confesso uma certa debilidade, talvez não no fazer gestos, mas no compreender. Ou melhor, não é no compreender, mas na incerteza - será que ela quer dizer isso mesmo?. Mas enfim, acredito eu que isso faça parte da mística que permeia a linguagem gestual.

Comunicar-se é uma atividade corriqueira, que todos nós fazemos, todos os dias, mas que ainda assim, merece atenção especial. O que é, em regra, simples, pode vir a ser uma arte, a arte de se comunicar. Quem não fica fascinado com um palestrante que consegue envolver a platéia, e passar, de maneira leve e quase subliminar, a sua mensagem? Ou então, quem não fica espantado com uma declaração, vinda de quem menos se espera, e de maneira tão bem arranjada que chega a ser desconcertante? São inúmeras as possibilidades, e elas só existem, felizmente, porque o homem não é uma ilha.

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Publicado em 17 de March de 2006, às 9:52 am, na categoria Eu e eu mesmo.

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