Rodrigo Ghedin

A viagem no tempo

Todos os dias, depois do almoço, dou uma descansada frente à TV. Vez ou outra este descanso se estende um pouco, até a hora do Vale a pena ver de novo, que, no momento, reprisa a novela A Viagem, de 1994.

Detesto novelas, acho-as repetitivas, excessivamente longas, e cansativas. Enfim, completamente insossas. Quem acompanha este blog há algum tempo já deve ter percebido isso. Porém, A Viagem eu assisto de bom grado. Não confunda, caro leitor, “assistir” com “acompanhar”. Ambas as palavras não são sinônimas. Assisto esporadicamente, sem compromisso, quando me pego vendo TV no horário em que ela vai ao ar. Mesmo assim, confesso ser estranho eu admitir que a assisto, ainda que vez ou outra. Mas explico isso também.

A referida novela foi ao ar há doze anos atrás, quando eu ainda tinha só sete anos de vida, e me via ocupado com a escola, meu videogame (nessa época, um Dynavision III), e brincadeiras tolas com os amigos. Hoje, olhando para trás, a sensação que tenho é que pouca coisa mudou desde então. E é exatamente neste ponto que está a graça de assistir A Viagem, ou qualquer outra novela com mais de dez anos. Ela mostra, de maneira bem explícita, como as coisas mudam num curto espaço de tempo. Afinal, bem ou mal, a novela é um reflexo da época em que ela é exibida (há exceções, como novelas de época, mas é outra história…). As mudanças na sociedade são sutis e gradativas, acontecem tão lentamente que, aos nossos olhos, parecem não ocorrer. Já escrevi neste blog que a melhor maneira de observar mudanças é registrando tudo que acontece à sua volta. A novela, em termos mais genéricos e abrangentes, tem esse papel, também. Talvez esta seja a única coisa interessante delas…

Hoje assisti metade do capítulo da A Viagem. O primeiro detalhe que se nota são as roupas das personagens. Mulheres com camisas xadrez para lá de bregas, calças jeans na altura do umbigo, e combinações de roupas dignas de brechós de rodoviária comandam. Depois vêm as gírias… Ah, como são divertidas! Sou um admirador de gírias e expressões antigas, e ver o playboy da novela falar para a moçoila por quem está apaixonado pérolas como “Fulana, tô amarradão em você” é hilário! Os carros, a ambientação e decoração das casas, esses e outros aspectos secundários também são interessentas. Ver o bonzão da novela dirigindo uma Parati quadrada como se dirigisse um novo Vectra é divertidíssimo! E as músicas!? Ou o gosto popular evolui muito rápido, ou em meados da década passada passamos por uma fase negra musical. Tosqueiras de Lulu Santos, Blitz e outras bandas/cantores losers dão o tom da trilha sonora da novela. Tem umas legais, que resistem ao tempo, como aquela da abertura, do Roupa Nova, mas mesmo assim o rótulo “velho” fica impregnado. Enfim, é algo que não dá para escapar, a menos que se faça uma lavagem cerebral coletiva das fortes, coisa que, até o momento, não lembro de ter acontecido (se tivesse também, não teria como eu lembrar… né?).

O mais legal de tudo é que, daqui a alguns anos, vou olhar para o longínquo ano de 2006, e dizer: “mas você era brega, hein Rodrigo!?”.

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Publicado em 19 de April de 2006, às 3:50 pm, na categoria Eu e eu mesmo.

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