Você é legal? Digo, você é bom? Katie Carr, a personagem principal do livro Como Ser Legal, de Nick Hornby, faz esse difícil questionamento. Aliás, acho que o título traduzido ficou meio deturpado… O original é “How to be good”, que traduzindo literalmente, seria algo como “Como ser bom”, o qual, para ser sincero, é mais condizente com a história. Mas, independente do título, que em ambos os idiomas faz o livro parecer auto-ajuda, trata-se de uma obra magnífica, a qual comentarei nos próximos parágrafos.
Antes de falar do livro em si, vale dizer que Como ser legal é diversão garantida. Além de todo o apelo filosófico implícito, e isso, por mais paradoxal que seja, é evidente, os diálogos e pensamentos de Katie são hilários, e não é difícil se pegar rindo sozinho ao lê-los. Hornby faz muitas referências bacanas, e usa do sarcasmo e ironia, sem exagerar, para dar um tom cômico ao texto.
Resumidamente (e sem spoilers; pode ler sossegado), o livro conta um pedaço conturbado da vida da médica Katie, narrada pela própria, que tem como ponto de partida um pedido de divórcio feito por ela ao seu marido, David, no meio de um estacionamento, via celular. Isso desencadeia uma série de acontecimentos, que incluem um adultério, um guru espiritual, e uma mudança de comportamento por parte de David, em virtude de DJ BoasNovas, o guru espiritual. Aliás, BoasNovas é, de longe, o mais divertido da história. Suas idéias, seus chiliques e seu modo de falar (”saca?”) são muito engraçados! Não sei por que, mas o imagino como aqueles prisioneiros de guerra do jogo Metal Slug, da SNK (imagem à direita);
só ficam faltando os cágados nas sobrancelhas. Completam o círculo de personagens principais os filhos do casal, Tom e Molly. Tom é seco e sagaz, e mesmo tendo apenas dez anos, em boa parte da história parece ser um dos mais adultos. Já Molly comunga das idéias excêntricas de BoasNovas e David; como diz Katie, é uma moralista em potencial.
Katie quer ser uma pessoa legal (boa), e é justamente por isso que escolheu a medicina como profissão, ou seja, a fim de ajudar aos outros para se sentir melhor consigo mesma. Mas, será que isso basta? O comportamento do novo David a deixa maluca, e põe em xeque tudo que diz respeito à benevolência que ela julgava esbanjar através do trabalho que exerce. E aqui, exatamente neste ponto, é que está o grande valor deste livro. O que é ser legal (bom)? Basta estar bem consigo mesmo, ou é necessário expandir os horizontes, e ver a coisa como um todo, onde você, e qualquer indivíduo, é uma célula de um organismo complexo e necessitado? E, sendo assim, é dever de todos colaborar para o bem comum? Pensamentos antagônicos (de Katie e David) expõem essas dúvidas através de prismas diferentes, não-convencionais.
Katie pensa grande, filosofa legal, e às vezes viaja na maionese. Mas, quem não faz isso? Como ser legal é uma leitura agradabilíssima, que consegue, sem ser piegas, fazer rir e refletir quase que simultaneamente, algo raro, diga-se de passagem. O final é estranho, mas depois de ruminado, faz todo sentido.
Mal posso esperar para ler os outros títulos de Hornby (Alta fidelidade, Um grande garoto e Febre de bola).
3 comentários até agora ↓
1 duard - Carlos Aquino // 19 May, 2006, às 1:48 pm
Vou ver se compro o livro…foda que vc passou todo o leriado…contou o filme.
2 Rodrigo Ghedin » Alta Fidelidade, de Nick Hornby // 29 Jul, 2006, às 7:05 pm
[...] Roteiro de filme “B”? Livro romântico? Nem um, nem outro. O parágrafo acima sintetiza Alta Fidelidade, o maior trabalho do talentosíssimo escritor inglês Nick Hornby, que, dentre outros, escreveu também Como Ser Legal e Um Grande Garoto. Um livro esplêndido, divertido do início ao fim, com um humor refinado viciante, referências culturais bacanas, e muita música boa. Música num livro? Sim! Claro, não dá para ouví-las lendo, mas o livro pode ser considerado um mapa da mina, que dá início à uma caça por boas composições (em especial, Solomon Burke, Bruce Springsteen e Marvin Gaye). [...]
3 sarah // 11 Aug, 2006, às 2:49 pm
Acabei de ler hoje o How to be Good, e, realmente, foi uma péssima escolha de título para a versão em português. Também acho que as duas opções (legal e bom) soam um tanto quanto auto-ajuda, mas Como ser Bom ainda é mais atraente do que “legal”. Talvez uma nova frase deveria ter sido feita. “Como ser Legal” não se encaixa muito com a história do livro… Fico até com medo de ler a versão traduzida!
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