Alta Fidelidade, de Nick Hornby
Rob Fleming é um fracassado com as mulheres. Ao longo dos seus trinta e cinco anos de existência, vem acumulando foras e mais foras, dos mais variados tipos, e proferidos pelos mais diversos perfis de mulheres. Dono de uma loja de discos jogada às moscas, com dois funcionários bizarros, Barry e Dick, vê sua situação piorar irremediavelmente quando, subitamente, sua então companheira, Laura, o abandona. Transtornado, não se dá por vencido, e inicia uma via crucis na tentativa de reconquistá-la. Entre uma e outra investida, que por sinal se dão das formas mais estranhas e improváveis possíveis, relembra, com uma certa nostalgia e algum remorso, os cinco foras mais dolorosos que já levou. Cinco não por acaso; fazer top five dos mais variados assuntos é uma constante entre ele, Barry e Dick.
Roteiro de filme “B”? Livro romântico? Nem um, nem outro. O parágrafo acima sintetiza Alta Fidelidade, o maior trabalho do talentosíssimo escritor inglês Nick Hornby, que, dentre outros, escreveu também Como Ser Legal e Um Grande Garoto. Um livro esplêndido, divertido do início ao fim, com um humor refinado viciante, referências culturais bacanas, e muita música boa. Música num livro? Sim! Claro, não dá para ouví-las lendo, mas o livro pode ser considerado um mapa da mina, que dá início à uma caça por boas composições (em especial, Solomon Burke, Bruce Springsteen e Marvin Gaye).
As passagens do livro são hilárias. Escrito em primeira pessoa, sendo Rob o protagonista e narrador-personagem, a leitura lembra, e pode ser considerada, um diário. Esse tipo de escrita, aliás, é característica de Hornby (Como Ser Legal, o outro dele que já li, segue este estilo), e o que poderia soar algo ruim, chato de ser lido, mostra-se, a bem da verdade graças ao talento do escritor, uma leitura agradabilíssima. Em meio aos relatos, Rob tece comentários sobre as situações vividas, e transcreve muitos diálogos que tem com outras personagens. É um tipo de escrita difícil de descrever, mas fácil de ser apreciada, prazerosa.
As personagens são muito bem compostas. Rob é o típico cidadão que se estabilizou, ainda que precariamente, e fica ali, fechado em seu mundo, envolto no que já está consolidado - Championship Vinyl, seus poucos amigos e uma compnheira. Ele tem conflitos internos, é obsessivo e angustiado para com Laura, vive emburrado. Laura, que até pouco antes do começo do livro vivia com Rob, é uma mulher firme e decidida, características estas moldadas pelo emprego (ela é advogada), mas que ainda assim entende e compreende Rob. Barry e Dick são divertidíssimos, cada um à sua maneira. Barry é explosivo, desbocado, não está nem aí para nada, somente se interessa por música. Dick é quieto, extremamente quieto, fica na sua, é submisso, e um bom amigo para Rob. Este quarteto forma o cerne do livro, que conta com outras personagens bacanas, como o bêbado Johnny, ou a mãe de Rob, ou ainda Ian.
Apesar de ser um livro que tende ao humor, muitos valores sociais importantes e delicados que são discutidos no decorrer das páginas. Aspectos como o amor, infidelidade, interesses etc. são tratados com sensibilidade pelo autor, sem jamais sequer passar perto da pieguice.
No ano 2000, foi lançada a versão cinematográfica do livro. Estrelada por John Cusack, o filme é bom, se levarmos em consideração que trata-se de uma adaptação. O maior destaque, sem dúvida, é a caracterização das personagens: Cusack ficou perfeito como Rob, Jack Black, impagável como Barry, e Todd Louiso nasceu para ser Dick. Comparando o filme com o livro, aquele pode ser considerada uma versão retalhada deste. Muitas passagens legais do texto se perderam na telona, o que é compreensível. Agora, nem isso justifica dois detalhes: o nome alterado de Rob, que de Fleming, passou a ter o sobrenome Gordon; e a dupla de cantores-marginais que Rob acolhe e dá suporte, juntamente com a gravadora “Top Five”, que não existem no livro. Em suma, assista depois de ler; essa ordem não causa mal-estar, e é facilmente digerível.

Da esquerda para a direita: Barry (Jack Black), Dick (Todd Louiso), Rob (John Cusack) e Marie DeSalle (Lisa Bonet).
Uma pena é o fato do livro estar esgotado. Não o encontrei em nenhuma livraria, seja física, seja virtual. Por muita sorte, ao fazer uma busca despretenciosa no Mercado Livre, encontrei um exemplar usado, sendo vendido pela Daniela Santos. Haja visto a dificuldade em encontrar este livro, e também o preço camarada que ela estava cobrando, não pensei duas vezes antes de dar o lance. Levei, e acredite: não me arrependo. Vale cada centavo; vale mais, até. Alta Fidelidade é uma obra fantástica, e embora traga muitas informações que jogam contra a longevidade do livro (quem tem discos de vinil? Quem grava fitas K7?), sua qualidade o garante entre os absolutamente bons, e por muito tempo.
Neste dia, em anos anteriores...
- Retomando as rédeas (2007)
- Trabalhando muito! (2005)
Paty
29 Jul, às 19:24
Eu nao li…mas AMEI o livro!
É engraçado e romântico na medida certa…e os atores parecem serem feitos para o papel:D
Beijo
Raquel
30 Jul, às 12:28
É um crássico, eu não li, mas vi já umas dez vezes o filme…rs Sem contar a maravilhosa atuação do Jhon e a trilha sonora. É uma Bridget na versão masculina.
Beijos
Yumi
30 Jul, às 12:52
No meio da página 121, logo após a indicação do capítulo 12, o autor inicia : “Durante a semana, penso em Marie, e penso no Homem mais patético do mundo, e penso,…”. Aí, exatamente nesse ponto que me encontro da leitura. Um livro de certa forma inútil para qualquer um que não entenda ou aprecie músicas antigas. No entanto, um passatempo ótimo. Nesse livro Nick Hornby narra os acontecimentos de forma a conduzir o leitor página a página de forma encantadora e divertida. Recomendo a leitura…(tomara que tenham a mesma sorte que eu de encontrar o livro,)
Beijosssssssssss
Inagaki
01 Ago, às 15:40
Para além da mania de criar top fives que o livro difundiu mundo afora, o fato é que “Alta Fidelidade” é um romance com uma história muito bem narrada, repleta de ótimos insights a respeito dos relacionamentos entre homens e mulheres e, principalmente, da fase que atualmente é conhecida como “adultecência”, com cada vez mais balzaquianos e quarentões agindo como se ainda tivessem seus 20 e poucos anos.
Nata.
01 Ago, às 22:59
Oh! Eu “vi” o filme mais ou menos com o Rafa… Já te contei que ele não me deixa assistir filmes?
Brincadeira, quem não deixa sou eu, fico falando todo o tempo…
Mas pelo pouco que assisti, já deu pra entender a história toda… É legal.
Lu
02 Ago, às 13:30
AMO esse livro! Já li umas duas ou três vezes e está no meu Top 5 de livros preferidos! Aliás, peguei mania de Top 5 depois de lê-lo (e tenho até uma categoria no blog inspirada nele) e, realmente, descobri muita música boa seguindo o “mapa da mina”, como você chamou as indicações de Rob. Vi o filme antes de ler o livro e foi paixão à primeira vista. Dei a sorte de achar uma cópia abandonada em uma livraria pouco freqüentada, depois de procurar muito. E mais sorte ainda tive por poder ver a peça baseada no livro (e escrita bem antes do filme), chamada “A vida é cheia de som e fúria”. Se tiver a oportunidade, veja! O elenco é sensacional! Existe material sobre ela na internet e fiz uma entrada no blog há tempos com esse título.
Lu
02 Ago, às 13:32
Ah, minha frase preferida do livro: “”Somente pessoas com uma determinada inclinação têm medo de ficar sozinhas para o resto de suas vidas aos vinte e seis anos de idade.” - eu tinha 25 quando li o livro pela primeira vez.
Yumi
02 Ago, às 14:24
Terminei de ler o livro….realmente muito bom…
bjus
Rodrigo Ghedin » Cinco momentos legais da primeira temporada de The O.C.
24 Ago, às 11:36
[...] É uma série mela cueca, tipo o jurássico Beverly Hills, 90210, mas com um enredo bacana, dramas realmente dramáticos, muita ironia, sarcasmo e referências culturais contemporâneas. enfim, é legal. Dando uma de Rob Fleming, após assistir todos os vinte e sete capítulos num período de menos de sete dias, listarei, neste texto, os cinco momentos mais bacanas. [...]
Rodrigo Ghedin » Reine sobre mim (Reign over me), de Mike Binder
17 Abr, às 10:52
[...] é muito minha praia, mas a profundidade com que o tema é tratado, algo mais ou menos na linha de Alta fidelidade, livro espetacular de Nick Hornby levado às telonas pelas mãos de Stephen Frears (High fidelity, [...]
Meme do livro - Yasmin «
21 Mai, às 12:47
[...] de livros. Só que antes disso, bati os olhos em um livro que estava na cabeceira da minha cama, Alta Fidelidade do grande Nick Hornby. Meme lançado, aqui vai a 5ª frase completa da página [...]
Ponto de Vista - Emerson Alecrim » 20ª Bienal do Livro São Paulo: eu fui!
17 Ago, às 18:11
[...] dando de cara com o livro Alta Fidelidade, de Nick Hornby, e com várias outras obras do autor. O Rodrigo Ghedin havia feito uma recomendação desse livro em seu blog, então não pensei duas vezes antes de levá-lo. Ao chegar no caixa, vi que os atendentes estavam [...]