E pensar que, no início, navegávamos a 14 kbps… Hoje, já há conexões comerciais de 30 mbps! Claro que este número está bem longe dos padrões brasileiros, mas mesmo assim, a banda larga, em terras tupiniquins, está muito difundida atualmente. Porém, o fator que mais interefere no escopo deste texto não são altas velocidades, mas sim as vantagens da banda larga sobre a estreita (ou, caso queiram, sobre a discadinha).
Esclarecendo o confuso primeiro parágrafo, pretendo, aqui, comentar alguns hábitos que tinha nos tempos da Internet discada. Pode parecer que não, mas a forma de usar a Internet muda drasticamente com algumas dezenas de kilo bits por segundo a mais.
Tive minha primeira conexão no final de 2001, através do provedor VSP. Dali a algum tempo, ainda na discada, aderi a provedores gratuitos, variando entre iG e iBest. Por fim, em novembro de 2004, pouco antes de ser demitido de um malfadado estágio num escritório de advocacia, assinei o serviço Turbo 300 (ADSL), com a BrasilTelecom.

Ícone clássico da dial-up.
A principal vantagem da banda larga, a meu ver, não é a velocidade, mas sim a disponibilidade. Hoje, posso acessar a web no meio da tarde, sem ocupar o telefone, e sem gastar um centavo a mais do que foi contratado com a prestadora do serviço. A conexão dial up usa a linha telefônica de uma maneira diferente. Simplificando a coisa, ela ocupa a linha, e gasta pulsos, como uma ligação local comum. Exatamente por isso que, naquela época, Internet era um bem restrito, acessível (abertamente) apenas nas madrugadas (após a meia noite, e até as seis da manhã), sábados após as catorze horas, domingos e feriados nacionais, períodos onde era cobrado apenas um pulso, independente do tempo de uso. Às vezes a espera era meio angustiante, e vez ou outra entrava durante a semana, no horário corujão, mesmo ciente de que, no dia seguinte, não prestaria a mínima atenção na aula, e quase dormiria em cima da carteira.
Naquele tempo (me sinto velho escrevendo assim), tudo era mais comedido, tímido, simplório. Em vez de bate papos com emoticons animados e outras frescuras, áudio e vídeo, tínhamos o bom e velho IRC. Velho sim, até para a época; salvo engano, este protocolo tem quase trinta anos. O IRC, sobre o qual já escrevi neste blog, era o máximo! Um lugar comum, onde jovens da cidade e região se encontravam, alguns religiosamente, nos horários que o telefone permitia. Muitas amizades surgiram entre a maioria dos participantes. Brigas, intrigas, risadas e surpresas, era quase o mundo real, com a vantagem de a vergonha não atrapalhar. E, se hoje aspectos geográficos impedem que você conheça a maioria seus contatos de messengers, como eram todos da mesma região, este problema não tinha vez no IRC. Tanto que os IRContros eram recorrentes, e não ter ido a nenhum deles, impedido pela exacerbada timidez que me dominava à época, é uma frustração que carrego comigo até hoje. Mesmo sem eles, conheci e me tornei amigo de muita “gente virtual”, e isso era muito bom.
Seguindo o espírito de comedimento, “download” era uma palavra quase proibida. Não baixávamos full albuns, mas sim músicas esparsas. Não baixávamos filmes, mas apenas clipes, e mesmo isso demandava uma paciência de monge tibetano. Download e navegação simultâneos? Nunca! Aliás, eram três as atividades principais na Internet: navegar, fazer downloads e conversar no IRC. Tal qual o MS-DOS, a Internet discada não era multi-tarefa. O usuário fazia uma coisa de cada vez, sob pena de, fazendo duas ao mesmo tempo, não conseguir nem uma, nem outra.
Apesar de todos os pesares, de naquela época tudo, incluindo-me aí, ser mais ingênuo, amador, eram bons tempos. Às vezes bate uma saudade enorme das bagunças que o Leitaum fazia na rede do IRC, os floods e confusões com os IRCops, bem como dos altos papos que rolavam nos canais; ou então dos malabarismos que fazia para acompanhar sites de notícias durante a semana, entrando clandestinamente na Internet, abrindo o navegador e carregando quase vinte páginas, para, dali a pouco, desconectar e lê-las offline; ou ainda de programas que marcaram época, como Kazaa, IRC, ICQ, e que hoje estão fadados ao esquecimento (ou à inutilidade). O progresso é bem-vindo, sempre, mas ele não é de todo bom; mata coisas legais, como o IRC, e eleva coisas pútridas, como o messenger da Microsoft. Pergunte a qualquer um daquela época, qual, entre MSN Messenger e IRC, ele prefere. A resposta unânime será IRC.
Não dá para voltar no tempo, eu sei. Por isso este relato, para que tais hábitos e manias fiquem registrados para a posteridade. Aposto que há muitos mancebos lendo este texto que jamais usaram Internet discadona. E, sinto-lhes dizer, meus jovens, mas vocês perderam a nata da Internet no Brasil.
Daqui a uns cinco anos, alguém escrevará algo nos moldes deste texto, falando sobre o longínquo ano de 2006 e suas obsoletas conexões de 320 kbps. Espero ser eu este alguém.
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Tags: banda larga, dial up, discada, icq, internet, irc, kazaa, mirc, nostalgia
Ghedin,
Parabéns pelo texto, ficou ótimo! Ainda me lembro do meu primeiro contato com computadores e internet, num 486 DX2 66Mhz, 16MB de ram e um “super” modem US Robotics de 9800bps… Era completamente inviável para usuários domésticos, ou você fazia uma discagem internacional pros EUA que demorava tempos pra se completar (pois até lá, boa parte dos dados passavam por linhas normais, não de fibra ótica) ou você entrava num rolo de pagar alguns dólares por mês pra você ligar de uma maneira “menos cara”…
Também, que conteúdo a internet da época tinha? Alguns sites de universidades e de países e uma ou outra empresa… Não tinha nem 1% do conteúdo que temos hoje…
Bom texto. Apenas uma correção fatual: conexões comerciais existem com velocidades muito maiores do que 30Mbps. A Embratel oferece links com até 622Mbps para empresas.
No meu caso comecei um pouco antes (por volta de 1996) com bbs, mas era algo muito limitado quando comparado com a conveniência da banda larga de hoje. Nunca fui muito de ficar em chat, ICQ, IRC e similares. Tem muita gente mentirosa e malandra e dificilmente sai algo útil dessas conversas na minha opinião.
Depois da bbs passei pra internet (no extinto provedor STI) numa conexão discada de 14.4kbps. Uma tortura. Horas pra baixar um arquivo e quedas frequentes de conexão.
Depois tive a primeira experiência com broadband usando o Speedy da Telefônica (estou em SP). Mais ou menos. Achei meio instável e o roteador ADSL fornecido impões limitações inaceitáveis pro tipo de aplicação que eu usava.
Em 2004 mudei pra Virtua (cable modem) e agora tenho estabilidade, velocidade e multiserviços incluindo telefone IP. Velocidade é muito importante pra mim. Faço muito download e não tenho paciência de esperar
Parabéns pelo blog.
Brilhante! Eu pertenci a essa época e o teu texto me fez lembra quão legal era contar os dias pra chegar o feriado ou “os malabarismos que fazia para acompanhar sites de notícias durante a semana, entrando clandestinamente na Internet, abrindo o navegador e carregando quase vinte páginas, para, dali a pouco, desconectar e lê-las offline”.
Hoje em dia a Internet se tornou algo que já fica chato… quem não se lembra do “ã-ãum”, o barulhinho de mensagens recebidas do ICQ? ehehhe
Muito bom… bons tempos!
Haha, bem lembrado, Caio! Ainda lembro a primeira vez que usei ICQ, que me foi recomendado por uma amiga de escola. Era madrugada, e meu pai acordou assustado, perguntando se eu estava ouvindo também um gato miando. Nem preciso dizer que o “gato” era o aviso de mensagem recebida do ICQ, né?
[]’s!
Abrir várias páginas e ler tudo offline, eu fiz muito isso. O que seria de mim sem esse recurso do IE?
Nunca fui muito de utilizar o irc, sempre usei o icq ou o, nem tão conhecido, Odigo que desde 2003 não é atualizado.
Através dele conheci uma colombiana que morava nos Estados Unidos.
Não vou dizer que eram bons tempos pois não vejo a menor vantagem em ter internet discada. Abraços.
Que legal que eu tbm sou do tempo da net discada ahuhauauhahaua….aff..tem gente que ainda usa neh>P
BEIJO
[...] Navegando na blogosfera encontrei um belo artigo sobre os velhos tempos da internet, escrito pelo Rodrigo P. Ghedin onde lembrei dos meus tempos da dial-up, e do velho IRC - dos ircontros, das paqueras (afinal, quem daquela época nunca ficou com uma garota que conheceu no IRC?), das brigas, das panelinhas de canais(e a rivalidade entre um e outro), dos campeonatos. No artigo dele também cita programas como Kazaa(antes dele o velho Napster), ICQ, entre outros. Tempo onde não podíamos nem ouvir falar em download. Tempo onde fazíamos a troca de CDs com amigos, me empresta Fifa2002 que te empresto Grand Prix 2. Onde, naquela época navegar na internet era como MS-DOS, tínhamos que fazer apenas uma coisa por vez. Recomendo pra quem é das antigas ler aquele artigo que lhe trará saudades daquele OTÍMO tempo. E quem é novo e pegou já a mamata da banda larga, leia também! Ah, a respeito, lembro do canal de meus amigos aqui da minha cidade, cuja qual eu era operador, e fiz o site do canal, o site é bizzaro, feito a partir de um layout pronto e alterado no Fireworks e Dreanweaver, porém me traz muita saudade. O endereço é http://www.kabotagen.cjb.net . E você, tem saudades daquele tempo? Como eu, prefere IRC ao MSN? Escreva, opine, eu QUERO saber! [...]
Ótimo post sobre a vida na internet antigamente.
Gostei, tanto que fiz um artigo no meu post lhe recomendando.
Abraços!
Amigo, você mandou bem em seu texto. Realmente ficou muito bom e com certeza existe muita gente saudosa desse tempo. Não digo com saudades das travadas, da lentidão, digo saudades da lida diária, dos macetes, enfim, foi uma época de muito aprendizado pra muita gente.
Ótimo texto.
É a primeira vez que eu leio seu blog e quase me emocionei c/ esse texto.
Apesar de eu ter apenas 15 anos, eu tive a minha época Ibest,Pop e IG.
Eu concordo que a tecnologia ajuda, mas com essa nova tecnologia nascem os Windows Live Messengers da vida, que ,eu acho dessa maneira, somento os ignorantes(meros usuarios que mal sabem passar sua Mp3s para o celular) acham muito interessate.
Se eles(usuarios) tivessem a sua época de discada, eu queria ver eles com o tal Windows Live Messenger rodando enquanto eles navegam na internet. Eles passasiram o domingo inteiro só para baixar o programa.
Resumindo:
Viva a internet discada!!
Apesar do irc ser muito mais simples, apenas caracteres de texto, onde nos viravamos para fazer os emotions, ELE FOI(e é até hoje, se houvese a mesma quantidade de usúarios daquela época) O MAIS DIVERTIDO.
MSNs da vida vendeu a batalha pelo markiting, pelas filuras que é os emotions em gif, pela conversa por voz, pela fotinha na janela, etc.
Acredito que o IRC acabou também pelos constantes netsplyt e lags das redes =/.
sou do grupo que ainda usa essa “tecnologia”.
acho q devia colocar mas informacões…
muito bom
Eu peguei o fim dessa era, mas sinto a mesma nostalgia… depois de uns 8 meses como rato de lan house, usei a discada pela primeira vez com meu veterano Pentium 200 MMX com 64 MB e 4 Gb de Hd… rs… Hj tenho um Athlon 2800+ com 512 Mb e HD de 80 e internet via rádio de 128 kbps (não mudou grande coisa a velocidade…rsssss… mas pelo menos é ilimitada), mas o veterano continua guardado como relíkia. E ke saudades das noites e noites de downloads no Kazaa, o bom e velho Kazaa, e os primeiros bate-papos on line… cheguei a conhecer as peripécias do ICQ, qdo o famigerado MSN Messenger ainda ensaiava ser alguém um dia… rs… tudo de bom mesmo, muita saudade. Hj temos a net relativamente rápida e disponível em tempo integral, mas… não temos mais a magia dakela époka, infelizmente. Muito bom o texto, gostosamente saudosista, parabéns.
[...] na blogosfera encontrei um belo artigo sobre os velhos tempos da internet, escrito pelo Rodrigo P. Ghedin onde lembrei dos meus tempos da dial-up, e do velho IRC - dos ircontros, das paqueras (afinal, quem [...]
Meeeeu Deus! Que lembranças! Peguei isso desde o começo!
hahahah.. excelente tempos!
Abraço e parabéns pelo texto!
aee =D eu to fazendo uma pesquisa no colegio e seo texto era tudo que eu precisava ! parabens
texto ta otimo ^^