Uma análise do Epic 2015
Se você usa Internet rotineiramente, e não enfiou a cabeça na terra há um ano, só tirando-a de lá recentemente, é muito provável que já tenha assistido ao vídeo-previsão Epic 2015. Não assistiu ainda? Clique aqui e assista!
Para os preguiçosos, e àqueles desprovidos de uma conexão decente, um breve resumo: o vídeo abrange o espaço temporal que vai de 1989, iniciando com a criação da WWW por Tim Berners-Lee, e vai até 2015, quando a Googlezon, uma fusão entre Google e Amazon, domina a informação, e conseqüentemente, domina o mundo (“informação é poder”, dizem).
O vídeo mostra uma visão de como a Internet evoluirá e chegará a um ponto onde será onipresente, ditando tudo. Com um quê de Admirável Mundo Novo, neste futuro amedrontador somos todos vigiados, e o pior, recebemos informação, conhecimento e cultura, de acordo com nossos gostos, localização e diversos outros aspectos objetivos e subjetivos. Este último ponto é o mais preocupante, já que, teoricamente, ignorantes assim o serão sempre. Não que hoje isto seja muito diferente, mas pelo menos os ignorantes têm as portas abertas para crescerem. (E o simples fato da ignorância os impedirem de abrir essas portas, ainda que paradoxal, é um mero detalhe).
Evidentemente que, pelo menos até 2015, este cenário não se concretizará. Seria sandice acreditar que o que é mostrado ali venha à tona em sete anos. Num futuro muito distante, talvez. Outros detalhes jogam a favor do meu ceticismo: previsões feitas no vídeo que não se concretizaram.
Assisti novamente o vídeo hoje, e vi algumas coisas que não batem com a realidade. Vejamos.
O vídeo fala sobre o A9, buscador da Amazon, que segundo ele, é o embrião da fusão das duas gigantes norte-americanas. Em 30 de abril deste ano, a Amazon trocou o motor de busca principal do seu buscador. Largou o Google, e adotou o Windows Live Search, motor da Microsoft. Além disso, nenhum outro movimento, de ambas as empresas, demonstraram uma mínima possibilidade de fusão.
Um detalhe legal, mas que acredito muitos não perceberam, é que, dentre os serviços adquiridos pela Google, o vídeo cita um tal de Keyhole. Mas, que diabos é esse Keyhole? Trata-se de um dos programas mais admirados e impressionantes da gigante de Mountain View: o Google Earth. O Keyhole foi uma das primeiras start ups adquiridas pela Google, em 2004, um pouco antes do Picasa, para ser mais exato.
Em seguida temos as duas maiores mancadas do vídeo.
Ele cita o Friendster, o “pai das redes sociais”, ou “avô do orkut“, como a rede social de maior sucesso nos Estados Unidos. Além disso, diz também que ela é adquirida pela Microsoft, num movimento desta visando frear o crescimento da Googlezon. Isso não ocorreu, evidentemente. A Microsoft tenta emplacar o Wallop (que, particularmente, acredito que será um fiasco, se sair mesmo), e o Friendster, que foi lançado em 2002, há quase dois anos perdeu o primeiro lugar entre os yankees para o fenômeno MySpace, que em setembro contabilizava mais de 106 milhões de cadastros, e já se prepara para desembarcar em outros países (incluindo o Brasil).
A outra mancada-mor refere-se ao cult iPod. Sucesso absoluto da Apple (que só é citada neste momento, no vídeo), o vídeo fala que, em 2005, uma versão munida com wifi (conexão sem fio) seria apresentada, revolucionando a distribuição de conteúdo cultural. O tempo passa, estamos quase em 2007, na quinta geração de iPods, e nada de wifi nele. Para embolar mais ainda o meio de campo, a Microsoft lançou, recentemente, o Zune, seu “iPod killer” que não assusta ninguém, e usa como principal chamariz para o produto (um doce para quem advinhar…) suporte a wifi! Todavia, vários aspectos circunstanciais colocam em xeque o sucesso do aparelho. Opinião pessoal: vai fracassar legal.
Em 2006, segundo o vídeo, surge o Google Grid, uma aplicação da Google que reuniria numa única interface, e com espaço ilimitado, todas as aplicações da empresa. O começo do fim, mais ou menos. Não chegou a ocorrer ainda, mas depois de uma temporada de compras e aquisições feitas pela Google, uma das metas da empresa para 2006 é integrar seus produtos, centralizá-los num lugar comum. Passos tímidos, como a integração do Spreadsheets ao Gmail, ou a inclusão do Google Talk no orkut, estão sendo dados, e acredito que, com o tempo, uma Google Account será tão ou mais popular que o famigerado .Net Passport (hoje, Windows Live ID).
Em 2010 inicia-se a guerra da informação, que culmina com um processo, movido pelo The New York Times, contra o Googlezon. Esta ganha a briga nos Tribunais, gerando outra incongruência no vídeo… Se governos do mundo inteiro implicam com a Microsoft, alegando que suas táticas comerciais agressivas são monopolistas, que dizer de uma mega-corporação de que controla a informação, mudando-a de acordo com o gosto do freguês, que por sinal só dispõe desta fonte, já que, em 2010, a Googlezon destrói a Microsoft e seu Windows Live? Nunca a situação chegaria a este ponto…
Em 2014, vem o golpe derradeiro rumo à alienação dos seres humanos. A Googlezon lança o Epic, uma maxi-ferramenta que funciona num esquema entrada-saída: a população produz conteúdo; este é mandado para o Epic, que o filtra, edita e redisponibiliza para cada pessoa, personalizadamente, na maior parte das vezes de maneira pobre, descaradamente manipulada, parcial e superficial.
Finalizando o vídeo, e este texto também, tudo termina com uma moça, ex-funcionária do The New York Times, fazendo um trabalho no seu bairro. Pelo que pude entender, é uma espécie de podcast baseado em entradas de GPS, algo que, vagamente, me lembrou uma rádio pirata. Seria uma espécie de alusão, adequada ao contexto, da célebre declaração de Albert Einstein: “Eu não sei com quais armas será lutada a 3ª Guerra mundial, mas a 4ª será com paus e pedras.” Ou seja, o Epic devastará a propagação da informação como a conhecemos, e forçará os visionários a retroagirem à “idade da pedra” da telecomunicação, para pura e simplesmente propagarem idéias.
Neste dia, em anos anteriores...
- Idealismo (2005)
Eduardo Comin
09 Nov, às 10:37
Confesso que logo depois que vi o vídeo, fiquei meio preocupado, não por achar que tudo nele era real, mas por começar a analisar um pouco como será nosso futuro. Seus comentários foram muito bons e ajudam a pensar em alguns pontos deste futuro.
Porém tudo ainda é muito incerto pois a internet atinge, hoje ainda, um percentual baixo da população mundial.
Comin Blog » Blog Archive » Vamos refletir um pouco sobre o Futuro!
09 Nov, às 13:46
[...] Também é interessante ver um comentário sobre o vídeo no blog do Rodrigo P. Ghedin . Posted in Tecnologia by Eduardo RSS 2.0 [...]