Rodrigo Ghedin

A arte de gravar CDs

Usei este mesmo título há mais de quatro anos, num artigo no WinAjuda no qual ensino os leitores a gravar CDs. Lembro que, na época, achei o título bem pavão, imponente, e, confesso, não liguei muito para o real sentido do mesmo. “Arte”, uma palavra forte e requintada, um bom título.

Hoje, pensando nas músicas que comporiam um CD que ainda hei de gravar, lembrei-me de Rob Fleming, do livro Alta Fidelidade, e em seguida, do meu texto, publicado em 2002. E cheguei à conclusão que não consegui chegar naquela época, à conclusão da qual Nick Hornby concorda comigo (ou vice-versa), mesmo gravando fitas ao invés de CDs, à conclusão de que gravar um CD é uma arte.

Numa passagem do livro, Rob, que é um admirador de música pop, nos entorpece com dúvidas acerca de como gravar uma fita. Qual música entra primeiro? Músicas de um mesmo intérprete devem ser gravadas juntas ou separadas? É melhor começar a fita com músicas agitadas ou calmas? Manter uma linha, uma seqüência lógica, ou se render ao aleatório? E no caso do aleatório, como fazer algo realmente aleatório?

Sempre demoro dias para gravar um CD de músicas selecionadas. Costumo fazer uma primeira triagem, na qual não ligo para a quantidade de músicas; simplesmente vou colocando as que me agradam, e se o CD tem uma linha, as que me agradam daquela linha. Passada esta primeira fase, faço uma nova triagem, desta vez removendo aquelas músicas “não-tão-legais-assim”, deixando apenas o supra-sumo, apenas o que meus ouvidos recebem sem reclamações. Finalizada esta segunda etapa, caso a quantidade de músicas tenha ultrapassado o limite do CD, vem uma das partes mais difíceis: remover as músicas extras. É complicadíssimo mensurar o quão se gosta de uma música, e o quão ela é descartável neste contexto, mas como o problema é a capacidade da mídia, ou seja, algo absolutamente fora da minha esfera de atuação, não tem outro jeito: algumas favoritas vão para o limbo.

A partir de então, tem início a segunda grande parte do processo: ordenar as músicas. Neste ponto, tudo depende do meu estado de espírito no momento, do tipo de música predominante no CD, de qual o destino do mesmo. Em outras palavras, é algo não-padronizado. Todavia, alguns detalhes costumo preservar, como evitar colocar músicas excessivamente destoantes em seqüência, e evitar se prender muito a um intérprete, pois a princípio, é uma seleção, logo, se for para gravar treze músicas de um cantor num CD onde há quinze, melhor comprar o CD do cantor logo. Uma dica interessante neste ponto é gravar a playlist (gosto dos formatos *.m3u e *.pls).

A última grande parte do processo é a gravação. É a mais simples, mas nem por isso desmerece cuidados especiais. O primeiro e um dos mais importantes é escolher uma mídia (CD) de qualidade. De nada adianta todo o trabalho feito até aqui se ela for de má qualidade, o que diminuirá consideravelmente a vida útil da sua coletânea. Independente do programa que for usar para gravar o CD, o faça em baixa velocidade. Atualmente, gravadores rápidos, com velocidades de gravação chegando a 52X, são popupales, mas gravar um CD de áudio nesta rapidez implica problemas, dos quais os mais graves são distorções na música, e incompatibilidade com aparelhos de som. O ideal é gravar numa velociade entre 8X e 12X. Demora um pouco, mas o resultado compensa.

Assim, após três grandes etapas, o CD com músicas seletas está pronto para ser ouvido. Depois deste “textão”, me diga: gravar CDs é ou não é um arte? Pois é.

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Publicado em 23 de January de 2007, às 5:14 pm, na categoria Eu e a tecnologia.

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