Rodrigo Ghedin

This is Sparta!

Há pouco mais de um ano, estava eu na locadora pegando o filme Sin City, baseado na obra literária homônima de Frank Miller, com uma expectativa imensa sobre o mesmo. A única coisa que havia lido do referido quadrinista era (e ainda hoje é) O Cavaleiro das Trevas, o quadrinho revolucionário dos anos oitenta que redefiniu o Batman. Apesar de toda a empolgação, foi uma decepção só. Ainda que muitos veículos de comunicação praticamente endeusem Sin City e seu estilo absolutamente fiel aos quadrinhos, eu particularmente achei uma grande porcaria.

Passado algum tempo, depois de fazer um sucesso estrondoso nos cinemas, chegou às locadoras V de Vingança, outro filme baseado numa graphic novel, só que desta vez do autor Alan Moore (embora o nome dele não apareça nos créditos, e ele recuse compulsivamente qualquer associação de seu nome ao filme - leia o segundo parágrafo deste texto). Apesar de, segundo entendidos, haverem discrepâncias marcantes entre os quadrinhos e o filme dos irmãos Wachowski (sim, os mesmos de Matrix), analisando o filme como tal, um simples e mero filme, ele é bem digerível, divertido e empolgante. Enfim, um Hollywood puro sangue.

Algum tempo depois, acompanhando alguns sites de cultura inútil, fiquei sabendo que a nova empreitada era transportar para as telonas 300, outra obra de Frank Miller, calcada na lendária Batalha das Termópilas, onde trezentos espartanos, liderados por Leônidas, se voltam contra o exército gigantesco do deus-rei persa Xerxes, em busca de liberdade. O receio de que tentassem, a exemplo de Sin City, fazer um quadrinho com movimento, meio que tirou minha empolgação com relação ao filme. Mas bastaram alguns trailers para que ela voltasse, e com força total.

300.

Também não li a HQ de 300, mas logo nos primeiros minutos de filme vê-se claramente a influência daquela neste. Tudo conspira para torná-lo épico - cenário, personagens, enredo -, mas tudo parece meio vazio, estranhamente quadrinizado, paradoxal à idéia grandiosa a qual o termo “épico” remete. É difícil explicar, mas a sensação é de que faltaram figurantes para determinadas cenas, e que os cenários, todos criados em computadores através da técnica Chroma Key (valeu Issamu!), são excessivamente artificiais, como em Star Wars II: O ataque dos clones (mas infinitamente mais bonitos). Felizmente essa sensação, pelo menos a mim, se restringiu aos primeiros minutos de exibição. Quando os soldados partem para a batalha, o cenário adquire constância, integrando-se perfeitamente à atmosfera proposta, complementando, com excelência, a exuberante beleza visual do longa.

Beleza, aliás, é um dos destaques de 300. A fotografia é de tirar o fôlego, a grandiosidade de determinadas cenas, chega a perturbar. Não há pudor barato, há sangue (virtual) jorrando sem parar nas que podem ser consideradas algumas das melhores cenas de batalha com espadas da história do cinema. Você fica extasiado logo na primeira, quando Leônidas desembesta e sai retalhando os persas, com efeitos de câmera em slow motion e closes estratégicos. É belíssimo de se ver!

300 (pôster).Gerard Butler simplesmente destrói interpretando Leônidas. Seu vigor, seus berros entusiasmantes e poderosos, criam uma espécie de aura mítica acerca da personagem. E falando em atores e coisas do tipo, Rodrigo Santoro está lá, mais estranho do que nunca. A menos que Butler seja muito baixinho, o brasileiro foi esticado, pois parecia ter uns três metros de altura. Sua voz, também, é deveras estranha. Cheguei a formular uma teoria de que ele foi dublado no filme, mas logo depois, lendo uma das críticas do Judão (que, aliás, fez um especial completíssimo do filme), descobri que a voz do brasuca foi modificada digitalmente, a fim de ter o tom “doce e forte como o trovão” que a HQ diz ter. Enfim, ele fala bastante, tem participação ativa, e até cumpre bem seu papel. Todavia, não sei se por implicância minha, ou se por ele ser ruim mesmo, sempre que o via na tela tinha aquela sensação de estar vendo novela das oito.

O longa é estupendo, o desenvolvimento impecável, e o final, de arrepiar os pêlos da nuca. O enredo, aliás, mistura narração em terceira pessoa, na voz de Dilios (David Wenham), com os próprios eventos da trama, sendo que ambos vez ou outra se encontram. O efeito final é muito bacana. Se vale a pena? Muito. Não arrisco dizer ser o melhor filme baseado em quadrinhos já feito (Homem Aranha me impede), mas um dos melhores, com certeza é. Este é o tipo de filme que ficará gravado na memória como o filme, parte da resposta à irrespondível questão “quais os seus filmes preferidos?”, paradigma para quaisquer longas épicos que venham a surgir a partir de agora. Enfim, um filmaço.

[tags]300, Esparta, Leônidas, Xerxes, Rodrigo Santoro, Frank Miller, Gerard Butler[/tags]

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Publicado em 31 de March de 2007, às 9:02 am, na categoria Cultura.

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