Rodrigo Ghedin

Tropa de Elite

Sexta, quando saí da sessão das 19h45min, e a Heri fez a pergunta-padrão do momento (“e aí, o que achou?”), não consegui responder. Tentarei agora.

Tecnicamente, Tropa de Elite é muito bom. Mas como certamente este ponto de vista não é o mais importante em se tratando de uma discussão acerca do filme, passo-o.

Não fiquei chocado, não fiquei extasiado, não fiquei deslumbrado com o Capitão Nascimento e sua trupe. Nada disso. Fiquei deprimido. Ou melhor, apreensivo. Preocupado. Enfim, com esses sentimentos incertos e, em determinados casos, como este, sem muita justificativa. Durante a exibição do filme, tentei entender o que leva jovens da classe média às drogas; pensei também em qual o futuro do menino que dedura o “fogueteiro”; no sangue frio, tanto dos bandidos (especialmente destes), quanto dos mocinhos; e também em como pessoas, seres humanos, conseguem ser coniventes com uma realidade tão… nojenta e repugnante como aquela. Favela, corrupção, nojeira, a podridão da humanidade, concentrada num só lugar. Lembrou-me a cadeia.

Esses discursos melodramáticos não acrescentam nada, e absolutamente não resolvem o problema. Problema este que, se hoje está longe daqui (acho eu), a julgar pelo que vemos nos jornais, amanhã poderá estar perigosamente próximo.

Parafraseando nosso Presidente, nunca, na história deste país (sic), a perda de valores básicos em qualquer sociedade civilizada esteve tão acentuada e acelerada. Exemplo recente dessa realidade: um rapper escreve, num dos maiores sites nacionais, que roubar de rico para dar aos pobres é certo. Como é que é!? Estamos em estado de sítio, e ninguém avisou? Ou voltamos alguns séculos na escala evolutiva, e agora só sobrevive o mais forte? Indignante.

A quebra de valores se transforma em algo corriqueiro, banal, e isso que gera conformismo, que por sua vez dá lugar à indiferença, como se o errado fosse certo, e ponto final. Outrora, sexo em novela era obsceno, imoral, reprimível. Hoje, em determinadas cenas, pouco ou nada difere o dito “programa familiar” de um filme pornográfico. A analogia aplica-se à perda de valores vivenciada atualmente - se bem que, na minha concepção, a analogia usada como exemplo é um valor perdido. Pessoas matam, traficam, consomem tóxicos. E isso passa batido pela maioria. Traficantes subornam, ditam normas que têm mais eficácia que as do Estado. Todos acatam, e pior, sentem-se privilegiados por estarem seguros, de baixo das asas do crime organizado. Estamos, afinal, a alguns passos da anarquia (no sentido “populesco” da palavra).

Interessante como uma coisa puxa outra, ou melhor, um problema puxa outro. Uma corrente pútrida infinita. Por essas e outras, rara e comicamente, penso às vezes em ir morar no Alasca. Além de não existir todos esses problemas sociais crônicos e incuráveis existem aqui, lá é frio e parece bem aconchegante (Homer Simpson que o diga).

***

PS1: Se gostei do filme? Sim. E só para constar, assisti no cinema, nada de DVD pirata que financia o crime. O mais engraçado é ver gente que assistiu a versão perna-de-pau fazendo discursos (caras-de-pau) abominando o financiamento do tráfico via consumo de drogas. Como se o dinheiro dos DVDs piratas vendidos nos camelôs fosse revertido para o Criança Esperança…

PS2: Estou pensando seriamente em adquirir o livro (Elite da Tropa). Uma pena terem substituído a capa. Agora, ao invés daquela original belíssima, colocaram uma com o Wagner Moura. Nesta semana darei um pulo na BomLivro de Maringá; vi a edição original lá há algumas semanas, espero que ainda esteja disponível.

PS3: O texto homônimo da Luciana Monte é leitura recomendada. Excelente análise do filme.

PS4: PSs claramente inspirados no Inagaki e no Tuca. Gostei disso, permite incluir notas pessoais e/ou não-relacionadas ao texto, sem comprometer o mesmo. Repetirei a dose :).

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Publicado em 22 de October de 2007, às 8:59 am, na categoria Cultura, Papo cabeça.

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