Sexta, quando saí da sessão das 19h45min, e a Heri fez a pergunta-padrão do momento (“e aí, o que achou?”), não consegui responder. Tentarei agora.
Tecnicamente, Tropa de Elite é muito bom. Mas como certamente este ponto de vista não é o mais importante em se tratando de uma discussão acerca do filme, passo-o.
Não fiquei chocado, não fiquei extasiado, não fiquei deslumbrado com o Capitão Nascimento e sua trupe. Nada disso. Fiquei deprimido. Ou melhor, apreensivo. Preocupado. Enfim, com esses sentimentos incertos e, em determinados casos, como este, sem muita justificativa. Durante a exibição do filme, tentei entender o que leva jovens da classe média às drogas; pensei também em qual o futuro do menino que dedura o “fogueteiro”; no sangue frio, tanto dos bandidos (especialmente destes), quanto dos mocinhos; e também em como pessoas, seres humanos, conseguem ser coniventes com uma realidade tão… nojenta e repugnante como aquela. Favela, corrupção, nojeira, a podridão da humanidade, concentrada num só lugar. Lembrou-me a cadeia.
Esses discursos melodramáticos não acrescentam nada, e absolutamente não resolvem o problema. Problema este que, se hoje está longe daqui (acho eu), a julgar pelo que vemos nos jornais, amanhã poderá estar perigosamente próximo.
Parafraseando nosso Presidente, nunca, na história deste país (sic), a perda de valores básicos em qualquer sociedade civilizada esteve tão acentuada e acelerada. Exemplo recente dessa realidade: um rapper escreve, num dos maiores sites nacionais, que roubar de rico para dar aos pobres é certo. Como é que é!? Estamos em estado de sítio, e ninguém avisou? Ou voltamos alguns séculos na escala evolutiva, e agora só sobrevive o mais forte? Indignante.
A quebra de valores se transforma em algo corriqueiro, banal, e isso que gera conformismo, que por sua vez dá lugar à indiferença, como se o errado fosse certo, e ponto final. Outrora, sexo em novela era obsceno, imoral, reprimível. Hoje, em determinadas cenas, pouco ou nada difere o dito “programa familiar” de um filme pornográfico. A analogia aplica-se à perda de valores vivenciada atualmente - se bem que, na minha concepção, a analogia usada como exemplo é um valor perdido. Pessoas matam, traficam, consomem tóxicos. E isso passa batido pela maioria. Traficantes subornam, ditam normas que têm mais eficácia que as do Estado. Todos acatam, e pior, sentem-se privilegiados por estarem seguros, de baixo das asas do crime organizado. Estamos, afinal, a alguns passos da anarquia (no sentido “populesco” da palavra).
Interessante como uma coisa puxa outra, ou melhor, um problema puxa outro. Uma corrente pútrida infinita. Por essas e outras, rara e comicamente, penso às vezes em ir morar no Alasca. Além de não existir todos esses problemas sociais crônicos e incuráveis existem aqui, lá é frio e parece bem aconchegante (Homer Simpson que o diga).
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PS1: Se gostei do filme? Sim. E só para constar, assisti no cinema, nada de DVD pirata que financia o crime. O mais engraçado é ver gente que assistiu a versão perna-de-pau fazendo discursos (caras-de-pau) abominando o financiamento do tráfico via consumo de drogas. Como se o dinheiro dos DVDs piratas vendidos nos camelôs fosse revertido para o Criança Esperança…
PS2: Estou pensando seriamente em adquirir o livro (Elite da Tropa). Uma pena terem substituído a capa. Agora, ao invés daquela original belíssima, colocaram uma com o Wagner Moura. Nesta semana darei um pulo na BomLivro de Maringá; vi a edição original lá há algumas semanas, espero que ainda esteja disponível.
PS3: O texto homônimo da Luciana Monte é leitura recomendada. Excelente análise do filme.
PS4: PSs claramente inspirados no Inagaki e no Tuca. Gostei disso, permite incluir notas pessoais e/ou não-relacionadas ao texto, sem comprometer o mesmo. Repetirei a dose :).
Ainda não vi, mas só pelos spoilers e resenhas, já posso dizer que praticamente assisti o filme.
Acho que o que falta ao cinema nacional é parar com esse denuncismo, essa exaltação à favela, à pobreza, ao pobre coitado proletariado. Chega! Eu quero ir no cinema justamente pra fugir da realidade, pra ver fantasia.
Claro, não que eu seja uma alienada, histórias reais são legais sim, vide Domino. Só que o filme tem uma visualidade, um enredo que te faz duvidar se aquilo é real ou não. Carandiru é ótimo, mas chega uma hora que enche o saco.
Estou curiosíssima pra ver Tropa de Elite. E tomara mesmo que seja do ponto de vista do BOPE mesmo, porque de ponto de vista de bandido já estou de saco cheio.
Ah sim, o IE6 é totalmente contra a vontade.
Eu já li o Elite da Tropa. É bom, não tanto quanto o filme, mas é bom.
Recomendo o documentário “Notícias de uma guerra particular”, caso não tenha assistido…
Eu penso assim: de certa forma, todos somos coniventes e culpados pelo podre da sociedade brasileira. Acho que filmes assim valem pelo discussão que gera, mas não passam de hypes, daqui a algum tempo, ninguém mais vai falar disso. Além disso, eu acho que mostrar a realidade dessa forma é meio depreciativo. Não que se deva mascará-la, mas eu acho que há forma melhores - e mais duradouras - de se levantar uma discussão.
Eu também recrimino quem compra de camelô, geralmente são produtos de péssima qualidade, eu baixo filmes da internet, mas nunca comprei de camelô.
Também acho que a capa original era muito mais louca.
Abraço
O que é acrescentado no livro? Estou querendo comprar também.
Estou lendo o livro. Muito bom e ainda mais cruel que o filme.
Numa entrevista, o Sílvio de Abreu comentou esse aspecto imoral das novelas, não apenas quanto a cenas de sexo, mas ao fato de que comportamentos antes condenados são, hoje, louvados pela população. Segundo ele, não são os autores que impõem esse novo padrão, mas a sociedade - a novela apenas reflete o que está por aí. Terrível, não?
Obrigada pela referência à minha resenha.
É muito bom ler e saber que você pensa desta forma.
E melhor ainda é saber que eu não estou sozinho nessa forma de pensar.
Só que triste é lembrar que toda a discussão sobre o tema foi gerada por um filme e mortes como a do menino João Helio cairam no esquecimento.
Olá Rodrigo,
Me enviaram seu site com “guia” para instalar o Nero no Vista e lendo melhor sua página vi seu comentário: “baixei os quase 100 MB de atualizações e correções já lançadas pela Microsoft, instalei os drivers não reconhecidos (pouquíssimos), “. Comprei um PC com Vista, Original, e não estou conseguindo dar o donwload do Acrobat Reader, Nero…Tudo inicia, quase baixa e no final aparece uma mensagem dizendo “faltar” infos de sites da net????? Como eu faço para baixar estes “ajustes” do vista?? rs rs rs já viu como entendo do assunto……… Super obrigada
Topas uma parceria com o http://www.perolaspoliticas.com ?
lilloedeia@gmail.com
Também assisti Tropa de Elite recentemente (no cinema, diga-se de passagem) e, como você, mais do que empolgado (como a maioria dos espectadores) fiquei foi com medo, preocupado. Aquela sensação de “onde isso vai parar?”…
Quanto ao Ferréz, não acho que ele tenha feito apologia ao crime como foi colocado por você, acho que ele estava apenas falando de desigualdade social.
Realmente, não gostei do filme. Odeio filmes que representam desgraça. .rs
É Ghedin, é como meu professor falou, ou temos uma polícia corrupta ( PM ) ou temos uma polícia assassina ( BOPE ). Eu não concordo em matar pessoas para tentar diminuir o crime, mas, na situação que o RJ está, é impossível resolver de outra forma. E no filme mostra, o BOPE só mata quem está armado ou quem tenta atirar neles.
Estou doido para ver esse filme, mas como moro em Portugal e parece que Tropa de Elite não irá estreiar no cinema por aqui…e não queria baixar pela Internet mas pelo jeito é o que sobra.
E ótima matéria ;D
Tô com o Junior, não consegui ver onde o Ferréz escreveu que “roubar de rico para dar aos pobres é certo”. Ninguém em sã consciência escreveria isso. Ele apenas comentou sobre a desigualdade social.
A Luciana escreveu sobre os comentários de Silvio de Abreu, eu digo que as novelas de hoje já não são como as de antigamente e fazem qualquer coisa para ganhar audiência.
Eu, como o Neto não compro de camelô, mas baixo filmes da internet por achar que não vale pagar uma entrada inteira para ver no cinema. Ao contrário, vejo filmes de locadora por achar um preço justo.
Sobre o filme, uma realidade, como diz o capitão, ou você se corrompe, ou você não está nem aí pra paçoca, ou você vai pra guerra. Sem uma “tropa de elite” é impossível eliminar os problemas do tráfico. Mas comer “restos” do chão não é nem uma migalha do treinamento realizado para entrar no batalhão.
Muito bem escrito, Rodrigo!
Beisu.