Quando alguém me pegava lendo O Ócio Criativo, do italiano Domenico de Masi, logo tratava de tecer comentários engraçadinhos, como “está estudando para ser vagabundo?”, ou então “e precisa de livro para aprender a não fazer nada?”. Normal, normal. Acredito que muitos dos que se dispõem a ler este livro o fazem com uma expectativa errônea, que o próprio Domenico trata de corrigir logo nas primeiras páginas. Ócio, na antiguidade, era considerada toda tarefa que não despendia suor. Ou seja, ócio era o trabalho intelectual.
Evidentemente, muita coisa mudou de lá para cá. O próprio significado da palavra “ócio” foi deturpado, e sua etmologia, perdida pela massa. Hoje é tido como o simples não fazer nada. Talvez por isso, Domenico tenha criado o ócio criativo, que, segundo ele, é o estado da pessoa que faz três atividades, usualmente realizadas em separado, juntas: trabalhar, estudar e se divertir.
O autor prega que estamos às portas de uma nova revolução, tão ou mais importante e impactante que a Revolução Industrial ocorrida na Inglaterra e que, como todos sabemos, mudou os rumos da humanidade. Este modelo, aliás, é brutalmente criticado no livro, por ignorar a capacidade das pessoas, tornando-as simples máquinas anencéfalas. A nova era, denominada pós-industrial, é completamente centrada no trabalho intelectual e no desenvolvimento humano.
Há um quê de utopia na teoria de Domenico. Se todos apenas usaremos o cérebro daqui em diante, como ficam os trabalhos braçais? Segundo ele, a automação, que já está num nível interessante, se ocupará disso. Outro furo é na crença dele de que todos somos capazes. Espero que ele esteja correto, embora, no momento, acredite mais na teoria de que há pessoas que nasceram e se desenvolveram para o trabalho braçal, e pronto.
Domenico vai ainda mais longe, e propõe uma ruptura do modelo de trabalho existente atualmente. Ele anseia o trabalho doméstico, realizado em casa, sem cartão-ponto, sem horários a cumprir, sem burocracia e horas extras. Para reforçar sua tese, traz à tona dados referentes a executivos de grandes empresas. Estes conseguem cumprir sua carga de trabalho em apenas seis horas, mas passam mais da metade do dia enfurnados em seus escritórios, apenas para fortalecer os laços com a empresa, visando promoções futuras. E esse enclausuramento gera um efeito-dominó: distância da família, ausência de divertimento, “emburreciento” cultural, e por aí vai.
O livro é um pouco denso, a leitura às vezes fica chata, e os assuntos vão e voltam com uma insistência meio desconfortável. Talvez o fato da narrativa ser em formato entrevista contribua para essa “chatisse”. Fiquei tentado a parar de lê-lo no meio do caminho, mas consegui chegar até o final.
As idéias propostas por Domenico de Masi em O Ócio Criativo são um pouco extravagantes, mas tenho absoluta certeza que, pouco a pouco, estamos migrando para uma realidade se não igual, parecida com a que ele deseja. O livro é relativamente antigo (do começo da década), e o progresso tecnológico alcançado desde então deve ter influenciado as idéias do autor desde a publicação desta obra. Afinal, home office, hoje, pode ser feito via Internet. Naquela época, de acordo com o livro, esta era uma possibilidade embrionária, com possível aplicação futura; naquele momento, o telefone bastava para resolver os problemas de casa. Será que dá para publicar textos no blog via telefone?
Neste dia, em anos anteriores...
- Algumas notas II (2006)
Lembro que adorei as idéias desse livro quando o li, anos atrás. Concordo, algumas propostas são radicais para a realidade brasileira, mas já é comum ver horário de trabalho reduzido em partes da Europa. É uma excelente forma de reduzir o desemprego e fazer circular a economia.
“embora, no momento, acredite mais na teoria de que há pessoas que nasceram e se desenvolveram para o trabalho braçal, e pronto.”
Que pessoas se desenvolveram para o trabalho braçal é fato mas isso não significa que elas só poderiam ter feito isso. Dada as devidas condições um trabalhador braçal poderia ter feito ‘trabalho intelectual’ sem problema algum. Não é uma limitação do homem como animal e sim algo imposto por diversos fatores.
Grata surpresa esse blog.
E pensar -cada dia mais- cansa…! rs.
Legal a dica!
Que livro interessante!!
O Ócio Criativo de Domenico de Masi adicionado na lista “must read” com sucesso.
Há controvérsias.
Apesar de acreditar que as idéias do italiano sejam coerentes com a realidade, muitas empresas não enxergam dessa forma. Onde eu trabalho por exemplo, nem mesmo mensageiro eletrônico é permitido coisa que eu acredito, usado com parcimônia, poderia resolver muitos problemas rapidamente.
O contato mais rápido ainda é o velho, ramal.
Outra coisa, horário flexível nem pensar, utilizamos cartão ponto. Isso pq trabalho em uma instituição de ensino muito bem conceituada que, teoricamente, deveria ter olhos para o futuro.
Sendo assim, não vislumbro um futuro muito parecido com o que ele deseja. Pelo menos não a curto ou médio prazo.