Charlie Brown e a menininha de cabelo ruivo
Dentre episódios do Pica Pau repetidos centenas de vezes, e outros do Popeye concebidos na Era Mezozóica, vez ou outra passa, na Record, alguns do Snoopy, clássico de Charles Schulz. Nunca fui muito ligado no universo do personagem, não dava muita bola para os desenhos semi-estáticos, mas enfim, estava eu deitadão no sofá, incapaz até de trocar o canal, quando começou um episódio do dito cujo. E eu assisti, e gostei muito, de verdade, e fiquei impressionado com a qualidade e a sensibilidade do autor.
O episódio em questão foi “Você está apaixonado, Charlie Brown” (“You’re in love, Charlie Brown”, no original), de 1967. Nele, Charlie Brown, o dono do Snoopy, se apaixona por uma colega de escola, a menininha de cabelo ruivo, e faz de tudo para, nos últimos dias do ano letivo, conseguir se aproximar da moça.

O mote do desenho já seria o bastante para fazer qualquer romântico otário e bobo à moda antiga, como eu, esboçar um sorriso ininterrupto. Porém, não bastasse ele, todo o resto colabora para com essa identificação gostosa e rara. As neuras de Charlie Brown, a ajuda dos amigos, o medo de encarar uma simples menininha… “Rá! Já aconteceu comigo!”. A produção, simples ao extremo, dá um ar nostálgico à obra. Enfim, é um clássico perdido e não reconhecido!
Um detalhe curioso é que, em momento algum, a menininha de cabelo ruivo aparece na tela. E essa é uma jogada fenomenal do autor! Dessa maneira, quem assiste tem a oportunidade de idealizar sua própria menininha de cabelo ruivo, se colocando no lugar de Charlie Brown, e entendendo perfeitamente o desespero do personagem.
Se você já teve um amor platônico, se já passou por situações embaraçosas no inÃcio da puberdade, se ao menos já olhou para alguma amiguinha com outros olhos, tem grandes chances de adorar esse desenho.
Uma pena o não estar disponÃvel em DVD no Brasil… Mas, pelo visto, é apenas questão de tempo. A Imagem Filmes lançou dois DVDs dos episódios clássicos do Snoopy, totalizando quatro, recentemente - o último é de janeiro de 2008. A esperança é que todos os demais sejam lançados, incluindo este relatado no texto.
Já assisti alguns outros, como “Lucy e Schroeder”, e são tão bons quanto o primeiro. O legal é que, apesar do aspecto visual infantil, o desenho aborda questões existenciais altamente complexas, de maneira tão sutil, tão agradável, que.. Ah, já deu pra perceber pelo meu entusiasmo o espÃrito da coisa, né?
Então, é isso: se não tiver nada para fazer após o almoço, dê uma zapeada na Record. Se estiver passando uns bonequinhos cabeçudos que praticamente não se mexem, falando coisas legais e profundas, pare e preste muita atenção. Ah sim: outro ponto de referência é um cachorrinho branco de orelhas pretas. Vez em quando, ele aparece também…
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PS1: A entrada do desenho na Wikipédia inglesa é imperdÃvel para quem já o assistiu - e para quem não vê problemas em ler spoilers também.
PS2: Duas curiosidades sobre esse episódio: 1) foi a estréia de Paty Pimentinha, que havia aparecido um ano antes nas tirinhas, em desenhos animados; 2) pela primeira vez, o som de trombone (ou qualquer outro instrumento de percussão) foi utilizado para representar as vozes dos adultos.
PS3: Eu quero esse desenho!!! Logo, logo, o conseguirei em inglês. AÃ, se ainda estiver inspirado, escrevo um resumão. Mas mesmo assim, eu ainda quero um DVD, e nacional!!!
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