Vácuo…

Em Californication, Hank Moody, personagem principal representado por David Duchovny, sofre de falta de criatividade para escrever um novo livro. O último escrito por ele foi lançado sete anos atrás. Numa passagem, no sexto episódio, acho, Hank diz a alunos do ensino médio algo do tipo: “Ser escritor é um saco. É como ter dever de casa todo dia para o resto da vida”. A pressão deve ser grande, ainda mais quando se é um escritor famoso. A expectativa por parte dos leitores é gigantesca, e a linha entre um novo sucesso e o iminente fracasseo é extremamente tênue.
Não sou escritor, ou melhor, autor de livros. Escrevo uns rabiscos aqui e em outros poucos blogs, e só. Também escrevo petições para a faculdade, se bem que lá a coisa é quase mecânica, do tipo “pegue uns artigos, cite uns autores e faça um pedido”. Mas mesmo nos blogs, algo que, em sua essência, poderia ser considerado um repositório de qualquer coisa, seja ela equiparável a um romance de Machado de Assis, seja ela algo digno do vaso sanitário, é aceitável. Afinal, o controle de qualidade sou eu mesmo, não? Sim, mas na prática as coisas não são tão simples assim.
Às vezes vejo a data do último texto publicado aqui, e me sinto culpado. Aí, dando uma de Dom Quixote, abro o editor de textos, e me vejo lutando contra monstros imaginários, monstros que são, na realidade, a mais pura e completa falta de assunto, de criatividade. Não tenho compromisso com ninguém, falando de forma objetiva. Se ficar meses sem escrever uma palavra aqui, um ou outro leitor me cobrará novidades, mas pára por aí. Não ficarei mais pobre ou menos rico, muito menos serei punido por abandonar o blog. Mas ficarei com peso na consciência, e voltarei a brigar com os monstros imaginários do editor de textos. Como se vê, essa liberdade proporcionada pelo blog é uma faca de dois gumes.
Hank, no auge da sua inépcia em criar um novo romance, passa a escrever num blog da Hell-A Magazine. Numa entrevista na rádio, o locutor elogia a nova empreitada do personagem, e este emenda o seguinte: “Mas é… É mais um monte de merda. Sabe, coisas me irritam e eu descarrego. Escrevo tudo”. Legal.

