Reine sobre mim (Reign over me), de Mike Binder
Por trás das notícias sensacionalistas e incansáveis veiculadas nos telejornais durante o dia todo, existem pessoas diretamente afetadas por tragédias que lhes levam entes queridos. Charlie Fineman, interpretado por Adam Sandler em Reine sobre mim (Reign over me, 2007), é uma delas. Após perder esposa e três filhas no atentado de 11 de setembro, o então dentista sofreu o chamado estresse pós-traumático, e passou a viver isolado, na companhia de seu vídeo game, bateria e cozinha eternamente em reforma.
Alan Johnson, representado por Don Cheadle, reconhece seu velho companheiro de quarto na faculdade por acaso, quando voltava para casa após um dia (não tão) comum de trabalho. E, graças a esse lance do destino, Johnson e Fineman se reencontram, e reatam a amizade perdida na época do atentado.
O filme, apesar da presença de Sandler, ator reconhecido por seus filmes humorísticos, é um drama pesado. Como dito, mostra uma outra face das tragédias, uma que não dá audiência, logo, não é vista por muitos. Mostra a vida em cacos de pessoas que, do dia para a noite, perdem famílias inteiras, pedaços de suas existências, pessoas marcantes e insubstituíveis - até pelo dinheiro de indenizações e seguros de vida. Quem vê esse filme superficialmente talvez ache que Fineman seja um bobalhão, ou um “bem de vida”; quem vê com olhar crítico, quem se dá ao trabalho de se imaginar na pele do personagem, encara o life style do protagonista como uma rotina agonizante e angustiante, mascarada por atividades que, em outra situação, seriam puro prazer e entretenimento.
Uma área que merece comentários à parte é a trilha sonora. Confesso que rock dos anos oitenta não é muito minha praia, mas a profundidade com que o tema é tratado, algo mais ou menos na linha de Alta fidelidade, livro espetacular de Nick Hornby levado às telonas pelas mãos de Stephen Frears (High fidelity, 2000), é digna de nota. As músicas são de bom gosto, e pautam boa parte das tramas paralelas do enredo.

Apesar dos bons toques de humor, Reine sobre mim é um filme profundo e muitíssimo bem conduzido - felizmente, para cada Mark Jay, existe um desconhecido (para mim) e interssante Mike Binder. Embora não tenha visto todos (meu saco tem limites), talvez este seja o mais sensível e melhor filme baseado no 11 de setembro. Não há sequer vestígios de patriotismo americano, algo que, a bem da verdade, é bem legal, mas só se você for americano; em qualquer outro caso, é algo enfadonho e constrangedor. Não há melodrama gratuito e sem sentido, nem sentimentalismo barato. São sentimentos reais, com os quais o espectador se identifica e se comove. Algo verdadeiro, resguardados os limites que o fato de se tratar de um filme fictício, obviamente, impõem.
O roteiro é imprevisível, e traz situações inusitadas que, quando esclarecidas, tornam-se engrandecedoras. Fineman, que à primeira vista aparenta ser o único a sofrer de problemas psicológicos, traz à tona aquela velha máxima de que cada um tem o poder de ensinar, por mais ignorante que seja. Mostra a Johnson e outros personagens, através de seu comportamento estranho, que certas amarras podem e devem ser quebradas. Não só é ajudado, como também ajuda.
Vale a pena, de verdade.

