“O que não me mata, me fortalece.”
por Friedrich Nietzsche

Reine sobre mim (Reign over me), de Mike Binder

Reine sobre mim (Reign over me).Por trás das notícias sensacionalistas e incansáveis veiculadas nos telejornais durante o dia todo, existem pessoas diretamente afetadas por tragédias que lhes levam entes queridos. Charlie Fineman, interpretado por Adam Sandler em Reine sobre mim (Reign over me, 2007), é uma delas. Após perder esposa e três filhas no atentado de 11 de setembro, o então dentista sofreu o chamado estresse pós-traumático, e passou a viver isolado, na companhia de seu vídeo game, bateria e cozinha eternamente em reforma.

Alan Johnson, representado por Don Cheadle, reconhece seu velho companheiro de quarto na faculdade por acaso, quando voltava para casa após um dia (não tão) comum de trabalho. E, graças a esse lance do destino, Johnson e Fineman se reencontram, e reatam a amizade perdida na época do atentado.

O filme, apesar da presença de Sandler, ator reconhecido por seus filmes humorísticos, é um drama pesado. Como dito, mostra uma outra face das tragédias, uma que não dá audiência, logo, não é vista por muitos. Mostra a vida em cacos de pessoas que, do dia para a noite, perdem famílias inteiras, pedaços de suas existências, pessoas marcantes e insubstituíveis - até pelo dinheiro de indenizações e seguros de vida. Quem vê esse filme superficialmente talvez ache que Fineman seja um bobalhão, ou um “bem de vida”; quem vê com olhar crítico, quem se dá ao trabalho de se imaginar na pele do personagem, encara o life style do protagonista como uma rotina agonizante e angustiante, mascarada por atividades que, em outra situação, seriam puro prazer e entretenimento.

Uma área que merece comentários à parte é a trilha sonora. Confesso que rock dos anos oitenta não é muito minha praia, mas a profundidade com que o tema é tratado, algo mais ou menos na linha de Alta fidelidade, livro espetacular de Nick Hornby levado às telonas pelas mãos de Stephen Frears (High fidelity, 2000), é digna de nota. As músicas são de bom gosto, e pautam boa parte das tramas paralelas do enredo.

Fineman (Adam Sandler) e Johnson (Don Cheadle).

Apesar dos bons toques de humor, Reine sobre mim é um filme profundo e muitíssimo bem conduzido - felizmente, para cada Mark Jay, existe um desconhecido (para mim) e interssante Mike Binder. Embora não tenha visto todos (meu saco tem limites), talvez este seja o mais sensível e melhor filme baseado no 11 de setembro. Não há sequer vestígios de patriotismo americano, algo que, a bem da verdade, é bem legal, mas só se você for americano; em qualquer outro caso, é algo enfadonho e constrangedor. Não há melodrama gratuito e sem sentido, nem sentimentalismo barato. São sentimentos reais, com os quais o espectador se identifica e se comove. Algo verdadeiro, resguardados os limites que o fato de se tratar de um filme fictício, obviamente, impõem.

O roteiro é imprevisível, e traz situações inusitadas que, quando esclarecidas, tornam-se engrandecedoras. Fineman, que à primeira vista aparenta ser o único a sofrer de problemas psicológicos, traz à tona aquela velha máxima de que cada um tem o poder de ensinar, por mais ignorante que seja. Mostra a Johnson e outros personagens, através de seu comportamento estranho, que certas amarras podem e devem ser quebradas. Não só é ajudado, como também ajuda.

Vale a pena, de verdade.

7 comentários

Realmente,não estava acustumado a ver Adam Sandler em papéis assim,mas o filme é muito bom,mesmo.

1 Gravatar# Felipe Loss, em 17 de Abril de 2008, às 13:01.
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Assisti este filme em dezembro, e me fez pensar muito… Sobre como julgamos as pessoas sem ao menos nos situar na pele delas. Muito show, altamente recomendado!

2 Gravatar# Rafael M., em 17 de Abril de 2008, às 15:03.
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Muito bom o filme, bem como o texto que o sr. produziu. Fiz um post sobre esse filme assim que o vi, mas confesso que quando li este post, invejei-o. No bom sentido, claro.
Abraços, e parabéns.

3 Gravatar# Márcio Medeiros, em 18 de Abril de 2008, às 01:01.
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Muito bom post, traduziu muito bem a idéia do filme. Assisti esse filme há um tempo atrás e também achei-o excelente, muito bem cadenciado e com excelentes atuações de Adam Sandler e Don Cheadle. Este último, aliás, tem costume de atuar muito bem os filmes e escolher bons papéis (vide “Hotel Ruanda” e “Crash”). Também curti bastante a trilha sonora, e particularmente adorei a versão do Pearl Jam para “Love Reign O’er Me” do The Who, que tocou no finalzinho!

4 Gravatar# Bruno, em 19 de Abril de 2008, às 23:11.
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Acredita que nunca ouvi falar desse filme. Acho até que ele não passou nos cinemas daqui. Filmes com o 11/09 de fundo, vão aparecendo aos poucos, mas esse me parece o mais humano, além de tratar de amizade. Fiquei com muito vontade de ver.

5 Gravatar# Bia Cardoso, em 23 de Abril de 2008, às 11:11.
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Juro que quando vi o nome do Adam Sandler no cartaz do filme fiquei com um pé atrás , principalmente ao lembrar de como vai ficar a voz dele dublada aqui no Brasil…

Mas após assistir o filme me surpreendi com o mesmo, meio carregado em uns certos momentos, mas muito bom.

6 Gravatar# Pepe, em 24 de Abril de 2008, às 09:09.
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Excelente trabalho de Adam Sandler, trilha sonora maravilhosa! O personagem Charlie Fineman retrata bem aquela velha história de superação e aprendizado. Um filme realmente muito belo!

7 Gravatar# Alessandra, em 23 de Junho de 2008, às 14:02.
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The OC

Fantastic four, de The OC.

Publicado em 17 de Abril de 2008, às 09:09, por Rodrigo P. Ghedin, na categoria Cultura.

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