O conceito de blog, numa explicação rápida: trata-se de um site, com entradas publicadas periodicamente e organizadas cronologicamente, onde a opinião do autor revela-se nos textos. Embora muitos não saibam esse conceito, acredito que boa parte dos que possuem um blog o conhece, ao menos empiricamente.
Desde o início, passando pela fase negra dos banners rosa-choque piscantes, chegando até à tal “maturidade” que muitos conclamam atualmente, este é o conceito, sem alterações bruscas. Essa maturidade traduz-se, na maioria das vezes, em muitas visitas e dinheiro no bolso do blogger. Nada errado, afinal, analisando friamente, isso é ser um blogger bem sucedido.
O problema aparece quando nos aprofundamos no processo para se alcançar uma renda decente proveniente dos blogs. Essa modalidade de remuneração ainda integra o rol dos trabalhos dos sonhos, ao lado do “fique rico vendendo cosméticos”, e do “ganhe dois mil reais trabalhando meio período sem sair de casa”. Vez ou outra recebo e-mails de gente desesperada para ganhar dinheiro com blogs, como se fosse algo tão simples quanto fazer um macarrão instantâneo.
Não quero adentrar, outra vez, esse assunto chato e batido que é a tal da “monetização”. Quero, neste artigo, focar numa modalidade em ascensão no Brasil: os publieditoriais.
Publieditoriais, para quem não sabe, são os famosos e polêmicos posts patrocinados, mas com um nome mais bonitinho, menos escrachado. Surgiu junto com o “boom” dos blogs no Brasil, gerou uma certa polêmica, foi renegado durante um tempo, e agora parece que voltou com força total.
Não condeno quem pratica isso, muito menos quem promove. Tenho bons amigos, reais e virtuais, que aderiram a essa modalidade de monetização, e, por mim, tudo bem, sem problemas. Quero atacar, exclusivamente, o modelo de negócios, não os negociantes.
Por que publieditorias não são legais? Esta é a primeira pergunta que eu faria a mim mesmo caso conversasse comigo sobre esse assunto. Acho que, em termos simples, o publieditorial coloca uma enorme interrogação no blog que o publica. O blogger pode não “se vender”, como de fato não o faz na maioria das vezes, mas fica um clima estranho no ar. Aliás, não é a opinião do blogger, seja ela boa ou ruim, que causa mal estar em mim quando me deparo com algum, é, sim, o dedo de quem pagou pelo post, mais especificamente, o fato daquele post ter sido comprado.
Blog é liberdade, é algo desvinculado do convencional, do mainstream. Isso fez e faz sua força. No momento em que o blogger se deixa envenenar por algo externo, que entra na pauta através de grana, boa parte dessa força se esvai. O publieditorial seria, numa analogia grosseira, a kriptonita do blog. Não o mata, mas enfraquece. Não detona a credibilidade e a visitação (tanto que acompanho muitos que fazem isso), mas pega mal.
Falo por mim, obviamente. Já fiz post patrocinado, ou publieditorial, e me arrependo. O dinheiro não é lá aquelas coisas, e o resultado, junto aos leitores, não compensa o sacrifício. Depois dos dois que fiz, ambos quase na mesma época, repensei muito isso, e decidi não mais fazer. Fui procurado recentemente por uma agência para realizar um trabalho do tipo, e simplesmente recusei, sem sequer perguntar preços e condições, e sem me preocupar com o fato dessa recusa acarretar qualquer tipo de boicote para outras ações diferentes do publieditorial.
Vale dizer que, lá fora, onde o blog realmente é maduro, essa prática é aceita, mas não é comum entre os grandes. Blogs como o do John Chow rendem muito via publieditoriais, embora isso tenha conseqüências graves – no caso dele, punição severa no Google. Por outro lado, temos o Gizmodo, cujo criadro, Brian Lam, recente entrevista concedida ao Nick Ellis, do brasileiro Digital Drops, afirmou que jamais fez ou fará post patrocinado. Não quero tirar o mérido do Chow, cujo blog, a propósito, é BEM legal, nem fazer uma comparação taxativa ou cientificamente válida, mas, só pra constar, qual dos dois possui mais relevância? Então.
Acredito que existam outras formas de anunciar em blogs, afinal, muitos, independentes, inclusive, possuem audiência superior a grandes sites de mesmo segmento. Sendo assim, porque anúcios convencionais, ou seja, banners e links em texto, não são oferecidos a estes com a mesma freqüência que publieditoriais o são? Isso é fácil de responder: um post é mil vezes mais presente junto ao leitor do que uma imagem 468×60 no topo da página. Em todos os sentidos, sob todas as análises, publieditoriais são (muito) mais baratos e dão um retorno bem maior. Nessa, é óbvio que as empresas optam por eles.
Não sei até que ponto vale a pena alugar um espaço em seu blog para que terceiro anuncie, e o que é pior, por um preço irrisório. Já vi bloggers fazendo publieditoriais por R$ 100,00… Eu mesmo, nas duas vezes que fiz, foi por um preço ridículo. Imagine viver de publieditoriais. De duas, uma: ou transforma seu blog numa bicicleta de pedreiro, veiculando um post por dia pra conseguir uma renda legal, ou passa fome, veiculando uns quatro posts por mês a troco de quase nada. Qual dos dois eu prefiro? Na boa? Nenhum.
Ações de empresas envolvendo blogs são legais, mas desde que sejam transparentes para o leitor. Não é puxa-saquisse, nem por manter um blog sobre, mas a Microsoft dá um banho nesse assunto. Já fui na sede da empresa no Brasil, já recebi produtos caros para avaliar (e sortear depois), recebo informações exclusivas, contatos de gente importante para entrevistar… Nunca me pediram um post sobre nada disso, e nunca me ofereceram um centavo para tal. Quem ganha? A própria Microsoft, que cria um laço de confiança com um blog independente (o grifo não é por acaso), eu, que ganho pautas e mais pautas interessantíssimas, e meus leitores, que lêem conteúdo exclusivo gerado de forma cristalina, sem dinheiro envolvido, sem desconfiança.
Como escrevi no início, não condeno quem faz publieditoriais. Leio e acompanho muitos blogs que recorrem a essa prática, e não deixarei de fazê-lo por causa disso. Só quis dar meu pitaco na questão para ver se surte algum efeito, se chama a atenção para algo que, a meu ver, é um verdadeiro problema, incompatível com a natureza do blog. Acredito que o caminho não seja este. Primeiro relevância, depois os louros da glória. Quer anunciar? Faça-o da maneira convencional, pague por anúncios no layout, não no conteúdo. O que difere um blog de um site é a opinião do autor sobre o tema, não sobre os anúncios. O leitor não quer saber se o blogger gosta do produto que está anunciando, ele quer saber o que o blogger acha dos acontecimentos de seu nicho.
Pense nisso.
Acredito que esse tipo de publicidade é muito mais comum do que se imagina. Por exemplo no Auto Esporte(TV Globo) quando fazem testes em alguns carros é certo que são matérias pagas, assim como sites de testes de hardware que recebem os mesmo de graça.
Na minha opinião deve se ter bom senso, se o post for interessante/relevante e o blogueiro não tiver sua opinião mudado pelo dinheiro que está recebendo em troca então por mim está bom.
Excelente texto, um dos mais concisos que eu li sobre o assunto, seria até legal você publicar ele no Winajuda.
Só tomar cuidado com “os sem noção” nos comentários.
Concordo Ghedin, embora haja espaço para todos.
A visita a um blog está condicionada a sensibilidade do blogueiro em escolher as notícias e quando for o caso comentá-las. Esta sensibilidade faz com que as pessoas se identifiquem, embora muitos ainda se sintam acanhados em opinar. Acho que o brasileiro,de uma forma geral, ainda está engatinhando ao emitir suas proposiçãoes. Mas está lentamente evoluindo.Constância nas edições, fidelidade nas proposições, posts não muito prolongados, a não ser quando seja necessário e opiniões sinceras fazem muito a diferença.