
Precisamos falar sobre o Kevin.
O filósofo italiano Cesare Lombroso defende, na teoria do criminoso nato, que criminosos assim o são desde o nascimento, ou seja, que ser criminoso é algo determinado por características biológicas, tal qual ocorre com deficientes mentais congênitos. Não importa o meio em que viva, nem a formação que tenha, ele continuará assassino, pois nasceu com essa inclinação, é algo inerente à sua própria existência. Outros pensadores do passado comungavam deste pensamento, mas é fato que, hoje, ele é visto com maus olhos, afinal, é meio impossível prever que alguém será criminoso analisando o tamanho do seu fêmur ao nascer, não??
Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, Intrínseca, 2007, ISBN 978-85-98078-26-7), romance de Lionel Shriver, resgata essa idéia, e a mostra com tal ferocidade que, por alguns momentos, durante a leitura, é impossível discordar da teoria de que existem, sim, aqueles nascidos para o mau. O perverso Kevin, desde a sua concepção, demonstra sinais de malvadeza explícitos, evidentes para a rejeitada mãe, Eva, e acobertados sob a forma de mal entendidos pelo amor abestalhado de seu pai, Franklin.
Kevin, aos quinze anos, matou onze pessoas em sua escola, na pacata Gladstone. Uma chacina que, imediatamente, remete aos garotos de Columbine e tantos outros que, vez ou outra, horroriza a classe média americana com semelhantes bárbaries inexplicáveis. E é justamente por fugir do lugar-comum para o qual todos tentam levar casos do tipo que este livro é tão instigante. Kevin não vem de uma família problemática, não tem problemas de rejeição social, não tem ligações com seitas satânicas, nem é facilmente influenciável por Quake e Doom. Ele fez por… fazer. Eva, por sua vez, não culpa as más influências, não culpa nenhum aspecto externo pela rebeldia de seu rebento. Ela não sabe o porquê de tanta raiva, e tenta descobrir isso, atribuindo a culpa a si mesma, vivendo despedaçada após o incidente desencadeado por seu primogênito.
O livro é narrado em primeira pessoa, através de cartas de Eva a Franklin, pouco mais de um ano e meio depois da quinta-feira. Misturando ao histórico de maldades de Kevin comentários e revelações, Eva reconta toda a trajetória sua e de seu menino, como ela decaiu de empresária bem-sucedida a agente de viagens fracassada e como ele sempre fora mau. Mas mau mesmo, no sentido mais puro da palavra; se adolescentes rebeldes que tiram sarro dos pais enquanto fumam um baseado apavoram os telespectadores da maior revista eletrônica do país, acredito que, ao ler as peripécias de Kevin, esses mesmos telespectadores teriam um ataque cardíaco - no mínimo. Não que atrocidades sejam narradas explicitamente durante a narrativa; embora algumas sejam, a sutileza com que as situações são postas às claras é suficiente para imaginar o que ocorrera, e se ultrajar ou sensibilizar com a situação.
O livro é fantástico, a começar pela capa (bem melhor que a original, americana). O menino com cabeça de rato, ou qualquer coisa que o valha, intimida e amedronta. Passa, com perfeição, o clima do livro, algo entre o sombrio, misterioso e macabro. Como não se julga um livro pela capa, felizmente o conteúdo é de uma intensidade idem, daqueles que o põem para pensar, neste caso em específico, coisas como “será que quero ter um filho mesmo?”.
Mais que um romance vívido e livre de clichês, Precisamos falar com Kevin é inovador, não apenas pelo tema, mas também pela abordagem que faz dele. Kevin é um personagem fictício, e como tal, a sensação que se tem é que Shriver, a autora da obra, condensou nele toda a maldade dos “garotos Columbine” existentes ao redor do mundo. Talvez ele seja o retrato desses seres perturbados, os quais provavelmente não nasceram maus, mas se deixaram levar até as últimas conseqüências, por mais dolorosas que elas fossem.
O livro ganhou o prêmio Orange, na Inglaterra, em 2005, e tornou-se, com méritos, best-seller no mundo inteiro. Segundo o IMDb, um filme está previsto para 2010. O roteiro pode funcionar muito bem no cinema, desde que tenha uma direção tão ousada quanto o próprio. Mas enfim, isso é papo para daqui a dois anos. Enquanto isso, pare de ler isso aqui e vá ler Precisamos falar sobre Kevin.
Nota:
(9)
Outros textos sobre Precisamos falar sobre o Kevin:
- A mãe do monstro, por Miguel Sanches Neto;
- Precisamos falar sobre o Kevin, por Cadorno Teles;
- Precisamos falar sobre o Kevin, por Leandro Diniz;
- We need to talk about Kevin, na Wikipedia (em inglês).
Compre no Submarino
![]() Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver |
Neste dia, em anos anteriores...
Posts Relacionados
Tags: best-seller, columbine, crítica, filme, kevin, lionel shriver, livro, orange, prêmio, precisamos falar sobre o kevin, resenha
