Blog do Rodrigo Ghedin

Facebook, o matador de amizades

Cheguei ao blog do Jurino numa dessas explorações online cujo caminho a gente esquece na medida em que por ele avança. Correndo os olhos na página inicial, um título me chamou a atenção: “Por que eu apaguei minha conta no Facebook”. O post foi escrito pela esposa do tal Jurino e, logo na introdução, ela diz:

“(…) Minhas motivações, portanto, não têm nada a ver com privacidade.”

Fiquei curioso. Privacidade costuma ser a principal alegação dos que resolvem cometer “facebookcídio” (já existe esse termo?), o que é algo bastante compreensível. Quando paro para pensar no tanto sobre mim que há nos servidores do Facebook fico um pouco balançado. Bate uma vontade de seguir os passos da esposa do Jurino e abraçar o espírito aberto-utópico dos caras do Diaspora, bem como a rede que eles estão montando a passos de tartaruga.

Mas aí aparece um “(1)” na aba do Facebook e corro lá para ver o que é e acabo esquecendo também dos meus devaneios libertadores.

Ontem li o texto da Linda (a esposa do Jurino) e ele teve a força de um soco no estômago. Os motivos dela realmente não têm nada a ver com privacidade; ela põe na mesa três pontos que culminaram com a sua decisão:

  • A banalidade com que acontecimentos das nossas vidas são tratados pelos “amigos”. Como exemplo, cita o falecimento da mãe de um amigo e as condolências super profundas de três palavras que saltaram no mural do rapaz;
  • O fato do Facebook tornar as amizades meras conveniências;
  • A perda de tempo.

Para Linda a primeira justificativa foi a mais forte, a gota d’água. Para mim, a mais chocante foi a segunda.

Facebook na parede.

Meu perfil, ou melhor, minha “Timeline” no Facebook diz que eu tenho 411 amigos. Quatrocentos e onze, amigos. Em um ano acho que não vi/cumprimentei 400 pessoas, fossem amigas ou desconhecidas. Esse número grande dá uma sensação falsa de pertencimento, de inclusão que o próprio Facebook, com sua psicologia maquiavélica que objetiva manter as pessoas o maior tempo possível ali, cria. É uma cilada, diria Pedro.

A maioria desse pessoal é de ex-colegas, de estudos e de trabalho, gente que passou pela minha vida e que há muito não vejo. Outro tanto, pessoas que vi uma vez se muito — festas, eventos, reuniões, amigos de amigos etc. Uma terceira e significativa parcela é formada por quem conheço apenas virtualmente. Quando encontrei pessoas do primeiro grupo na Internet, muitas delas primeiro no orkut, o quê de nostalgia foi delicioso. É, afinal, o que motiva muita gente a ingressar em redes sociais, reencontrar velhas amizades e tudo mais… Mas para aí. Uma amizade que se perdeu pelos caminhos da vida não volta com um clique no botão “Add Friend” e outro no “Accept”. Tal relação é difícil de construir e pede muito mais do que um teclado e uma tela. Muito mais.

Então ficamos naquela de “colecionar fotos 3×4″ (ou 125×125 pixels, no Facebook) de gente que não faz mais parte das nossas vidas ou que estão distantes nas várias formas que a palavra possibilita. Até que ponto isso é saudável? Até que ponto isso agrega alguma coisa? Sinceramente, não vai muito longe. Até agora não descobri nada além da boa e velha curiosidade em saber “que fim teve” fulano ou ciclana — que muitas vezes, aliás, é mascarado por leves adaptações.

Em muitos casos, inclusive, a lembrança boa que se tem de algumas pessoas some com o comportamento constrangedor que elas têm online, não por serem pessoas ruins ou malucas ou babacas, mas simplesmente por não saberem se portar na Internet. Não há amor platônico da adolescência que resista a frases motivacionais/religiosas, tirinhas de “memes” ou erros grotescos de português. Eu gostava mais da mocinha do Ensino Médio que morava na minha cabeça, não essa doida que me adicionou ontem.

Para piorar, o Facebook usa e abusa da manipulação algorítmica para colocar no meu feed de notícias conteúdo de pouca gente, apenas de quem ele acha que eu acho ser interessante. Quando acessei meu perfil para ver quantos contatos tinha tomei um susto com os 411 porque, de verdade, se me fosse perguntado, diria que só recebo atualizações de 15 pessoas. É bem verdade que andei limitando o aparecimento de um monte de “amigos” chatos no meu feed (bola dentro esse recurso, Zuck!), mas poxa, longe, muito longe de eu ter feito isso com os outros 396 contatos. Há uma filter bubble ali, uma panelinha automatizada em cada perfil do site criando gente que só consome o que lhe agrada. Outro (enorme) problema que já foi melhor discutido por este rapaz.

Vez ou outra encontro alguns “amigos” do Facebook por aí. Cumprimento-os, se muito. E, ante isso tudo, me questiono se tal ação robótica não mudaria se não existisse o Facebook. Se, ao reencontrar um velho colega de escola, o fato de eu não tê-lo “reencontrado” antes e saciado a curiosidade na via virtual não nos daria mais assuntos para matar a saudade dos bons tempos, saber o que fizemos nesses tantos anos afastados, botar o papo em dia. Às vezes eu sinto que sim, embora não tenha muita experiência empírica para atestar a tese — afinal, quem não tem perfil no Facebook hoje? Ano passado reencontrei uma dessas raras pessoas, amiga do Ensino Médio, no centro da cidade. Foram cinco minutos de conversa que valeram mais do que toda a interação que já tive com mais da metade dos meus amigos no Facebook. Foi apenas um caso, mas um promissor e interessante caso capaz de sustentar a minha hipótese.

Não sou desses que diz que a Internet afasta as pessoas, mas o Facebook, talvez. Ele é ótimo para cultivar as nossas melhores amizades, as mais fortes, do dia-a-dia, mas um salafrário com o pessoal mais afastado, periférico. De qualquer forma a culpa é de nós mesmos, afinal ninguém me obrigou a, no dia 20 de setembro de 2007, criar meu perfil ali.

Ah sim, essa é outra inovação da Timeline: dizer quando você entrou no Facebook. Posto de outra forma, quando você começou a trocar as suas memórias e possibilidades de grandes reencontros por figurinhas de 125×125 pixels.