Blog do Rodrigo Ghedin

Anjos, EVAs e Adão: divagações sobre Neon Genesis Evangelion

Um anime que revolucionou o mercado em meados da década passada, recriando o filão dos desenhos para adultos, e bombardeando os telespectadores com um enredo surpreendente, Neon Genesis Evangelion foi, e ainda hoje é, uma obra prima. Escrito por Hideaki Anno, e lançado em 1995 pelo renomado estúdio Gainax, fez um sucesso estrondoso, e gerou dois filmes, que recontam os dois últimos (e polêmicos) episódios da série, que é composta por vinte e seis episódios. Até a metade, trata-se de uma história até previsível, porém empolgante, de mechs, espécies de robôs gigantes, controlados por crianças. Dali para frente, a densidade é tamanha que tudo o que era focado na primeira parte da série torna-se secundário; o autor vai fundo na mente dos personagens, nos seus medos, conflitos e incertezas. Pode soar meio batido, mas acredite, é algo extremamente bom!

Evangelion é o tipo de arte gostosa de se discutir, páreo para Matrix, ou Star Wars. A história é truncada, cheia de mistérios, meias-palavras, explicações subentendidas. Exatamente por isso, talvez quem nunca assistiu o anime, o que é perfeitamente compreensível, já que, por aqui, ele só passou na Locomotion (canal pago), irá “boiar”. Além disso, há os dois filmes, que até onde sei, são inéditos em terras brasileiras. Enfim, acredito que haverá alguma alma viva que lerá este texto e o compreenderá. E mesmo que não haja, sem problemas; estou afim de extereorizar algumas idéias e impressões que tive enquando assistia Evangelion. Se tiver a pretensão de assisti-lo algum dia, não leia este texto, pois há muitos spoilers. Por fim, dividirei os assuntos em tópicos, já que é muita coisa e, enquanto escrevia, senti que estava transformando o texto numa salada indigerível até mesmo para mim.

» Uma visão geral da história

A história é calcada nos Anjos, entidades que aparecem a partir no ano 2015, quinze anos após os acontecimentos do Segundo Impacto, cujo qual ocasionou o derretimento das calotas polares, e consequentemente o caos no planeta, que por sua vez diminuiu consideravelmente o número de habitantes da Terra. Para enfrentar os Anjos, a SEELE, uma organização não governamental, através da NERV, criou os Evangelions, ou simplesmente EVAs, robôs gigantes criados a partir de Lilith, que junto com Adão, deu início à humanidade. Se não me engano, Lilith é como se fosse a antecessora de Eva. É estranho que, até perto do final da série, todos pensam que que o gigante crucificado no Terminal Dogma da NERV é Adão, quando na verdade trata-se de Lilith. Mais estranho ainda é o fato de que Adão simplesmente não aparece em lugar algum! Bom, eu não consegui encontrá-lo… A humanidade luta com os Anjos na tentativa de evitar um Terceiro Impacto, que, segundo consta, aconteceria num eventual contato entre um Anjo e Adão (Lilith).

» Segundo Impacto

Juro que tentei, mas não consegui descobrir como ocorreu o Segundo Impacto. A princípio imagina-se que ele foi ocasionado pelo contato entre um Anjo ou um EVA e Lilith, mas essa teoria cai por terra no episódio 22, quando a Unidade 00 vai até Lilith e pega a Lança Longinus para destruir um Anjo, causando surpresa em Misato. No Death and Rebirth, fica claro que o Segundo Impacto foi causado intencionalmente pelos homens, a fim de evitar uma catástrofe ainda maior. Entretanto, o quê o fez acontecer permanece incógnito.

» EVA

Fazendo uma alusão à Bíblia, onde Eva nasce de uma costela de Adão, o EVA da série também é criado a partir de Adão (ou seria Lilith?). Se no começo eles aparentam ser apenas robôs inanimados, no final descobre-se que os EVAs carregam uma alma humana. Mais que isso, geneticamente falando, um EVA é praticamente idêntico a um humano. Eles necessitam de um piloto, que deve ser compatível com o EVA. Esses, os pilotos, entram no EVA através do entry plug, um cilindro cheio de LCL (parece nome de entorpecente… Coincidência?) que é injetado nas costas do EVA. A partir daí, e havendo sincronia, o EVA responde aos comandos do piloto, e os dois praticamente se fundem num só. No episódio 19, a Unidade 01 de Shinji entra em modo berserk, quando ele fica fora de si e não precisa mais de energia para funcionar. Esta parte é crucial para o entendimento da história. O EVA é na verdade uma espécie de ser humano gigante, que é facilmente perceptível pelo braço que ele regenera. Akagi explica que as armaduras do EVA são, na realidade, limitadores, que permitem à NERV controlá-los. A Unidade 01 arrebenta vários limitadores, e age como um animal, chegando a comer o Anjo. No The End of (segundo filme), a Unidade 02 é devorada pelos nove EVAs que complementam a série. É complicado entender, mas aparentemente a função dos EVAs é, além de derrotar os Anjos, executar o Projeto de Instrumentalização da Humanidade.

» As Crianças

Para pilotar os EVAs, são convocadas crianças. Rei Ayanami (Primeira Criança), Asuka Langley Sohryu (Segunda Criança) e Shinji Ikari (Terceira Criança). No decorrer da série, surgem a Quarta e a Quinta Criança, respectivamente Toji Suzuhara e Kaworu Nagisa. O primeiro é amigo de Shinji, que, vale citar, é o personagem principal; o segundo é misterioso, e só aparece no episódio 24 da série. A relação entre ele e Shinji é deveras complicada, tendendo ao homossexualismo. Entretanto, é interessante ver como Shinji, que é extremamente introspectivo, beirando a auto-flagelação, sente-se bem na presença de Kaworu. Inclusive no final do The End of, quando a Unidade 01 está envolta por Lilith, no meio daquela confusão toda a imagem de Kaworu tranqüiliza Shinji instantaneamente.

Azuka é alemã, criada por pais adotivos, e é a melhor em tudo que faz. Ela busca auto-afirmação, acredito eu. Tanto que, depois que a Unidade 02 é derrotada vergonhosamente, e a 01 entra em Berserk contra o Anjo (episódio 19), e logo em seguida, quando novamente é derrotada por outro Anjo (episódio 22), ela entra num estado depressivo que só se reverte no final do Death and Rebirth (primeiro filme), quando ela finalmente entende o significado do campo A.T. (Absolute Terror, ou Terror Absoluto).

Rei é uma boneca. Dá a entender que ela é uma espécie de clone de Yui, mãe de Shinji e mulher de Gendo (comandante da NERV, pai de Shinji), que morreu durantes os testes de ativação da Unidade 00. Ela é insensível, mas por diversas vezes demonstra semelhanças com Yui, o que ratifica essa tese da clonagem. Que há vários clones dela, isso é inegável, tanto pela “reposição” que ocorre no episódio 23 após o suicídio dela no EVA, como pelo depósito de clones que Akagi mostra no mesmo episódio.

Sobre Shinji escreverei mais a frente.

» Objetivos da NERV

Considero esta a parte mais intrigante de Evangelion. Afinal, qual o objetivo da NERV? Pelo que consta, é criar os EVAs a fim de eliminar os Anjos. Mas, lá para o final da série, e principalmente no The End of, fica claro que Gendo queria mais que isso, que os EVAs eram pura e simplesmente ferramentas para o real objetivo não só da NERV, mas da SEELE: evoluir a espécie humana, através do Projeto de Instrumentalização Humana. O EVA é o ápice da existência dos homens, logo, chegando ao limite, é necessário evoluir. Este projeto transformaria todos os seres humanos, incompletos e inconstantes, numa única entidade perfeita. No final da série, esta transformação é passada através da mente de Shinji; nos filmes, é mostrada “fisicamente”. Independente do ponto de vista, aparentemente após essa fusão tudo acaba: problemas, deficiências, medos etc., e passamos a viver como um só, num onipresente mar de LCL. Embora possa parecer estranho, o final da série faz mais sentido que o do filme.

O Projeto de Instrumentalização Humana remete a um mundo comunitário, onde todos formam um só. Essa tese, também abordada em outras obras (como Admirável Mundo Novo) tem despertado muito meu interesse. Mas isso é papo pra outro post

» Shinji Ikari

Shinji é um cara com a auto-estima baixíssima, daqueles bem desanimados com tudo, que, quando vemos, temos a impressão de que gosta de sofrer. Ele cai de gaiato na história, simplesmente por ser filho de Gendo, sendo chamado a pilotar a Unidade 01. Sem nenhum treinamento, ele consegue sincronizar com o EVA e derrota o primeiro Anjo. Já li algo que sugere que a alma da Unidade 01 é a de Yui, mãe de Shinji, o que explica essa sincronia, mas não sei se é isso mesmo.

Shinji se vê, no decorrer da série, envolto por dilemas aparentemente triviais, mas o que o torturam duramente. Ele tem medo de machucar os outros, mas paradoxalmente o faz, para se sentir mal logo em seguida. É um negócio meio masoquista. Por diversas vezes ele desiste de pilotar o EVA, mas sempre volta quando vê que Asuka ou Rei não estão dando conta dos Anjos.

» Filme e série

Como já relatei acima, a série, a partir do episódio 25, vai fundo na mente de Shinji, terminando com ele finalmente se livrando dos seus traumas, e recebendo congratulações de todos os personagens. É um tipo de mensagem de auto-estima para quem assiste, e aqui está o grande trunfo da série, que a torna única: enquanto todos esperavam as revelações acerca da SEELE, dos EVAs e de Lilith, Hideaki Anno se concentra somente na mente conturbada de Shinji, e mostra que, por mais difícil que pareça, é possível mudar, melhorar, mesmo quando o meio não colabora em nada para isso. Os telespectadores ficaram meio decepcionados, e exatamente por isso os longas foram feitos, já que eles não se prendem à mente de Shinji, mas sim mostram o que ocorre na realidade, qual o destino de todos os personagens, mostra a Instrumentalização acontecendo (as pessoas “derretem” e viram LCL). Não ficou forçado, pelo contrário, eu os encaro (aos filmes) como ótimos complementos à série, embora tenha achado o final desta irretocável. Ah, e ver a Unidade 01 no mesmo nível de Deus, ou como diz um soldado, “como um demônio”, já vale a existência dos filmes.

» Os finais

O da série é incrível. Shinji finalmente se liberta dos seus traumas, numa seqüência de falas extremamente bem feitas e atordoantes, ditas por todos os personagens. A realidade somos nós que fazemos, dizem eles, e embora Shinji tente não ver isso, dizendo odiar-se, os argumentos jogados pelos demais são incontestáveis. Uma passagem interessante diz que, se lhe disserem que dias ensolarados são legais, e dias chuvosos são entediantes, isso ficará na sua mente. Mas se você ver isso por uma outra perspectiva, verá que é possível se divertir em dias chuvosos, também. Trata-se de uma analogia ao sentimento de auto-menosprezo de Shinji: ele acredita que todos o odeiam, mas para que isso mude, depende apenas dele. Nas palavras do sub-comandante da NERV, Fuyutsuki, “sua verdade pode ser alterada, simplesmente, pela maneira como você a aceita”. Quando Shinji se dá conta disso, uma espécie de vidro se quebrando surge, fazendo uma alusão ao bloqueio que ele tem para consigo mesmo. Incrível!

O do filme, que, como já dito, mostra o que acontece “fisicamente”, é estranho. A Instrumentalização chega a ocorrer, mas, pelo que pude entender, Shinji a interrompe, graças à sua vontade própria. Ou não!? No final surgem Shinji e Asuka deitados numa praia; passado um tempo, Shinji começa a enforcar Asuka, mas pára quando esta o faz um carinho, e tudo termina com ela falando “que odioso”. Seria este mundo, onde existem somente ele e Asuka, o perfeito para Shinji, ou seja, o mundo dele? Sim, porque, pelo que pude entender, quando todos os humanos se fundem numa só entidade, cada qual tem seu mundo perfeito. Ratifica esta tese o momento em que a Instrumentalização tem início, quando os espíritos (!?) de Lilith, que têm a forma de Rei, tocam as pessoas, realizando seus desejos para, logo em seguida, transformá-los em LCL. Isso fica incógnito: a Instrumentalização é consumada, ou não?

» Conclusão

Desculpem o longo texto. É empolgante divagar sobre Evangelion. Confesso que daria pra escrever muito mais, mas aí o post se tornaria (ainda mais) cansativo. Então, deixo a tarefa para vocês, nobres visitantes que já assistiram essa maravilha: complementem, discutam, discordem, acrescentem. Nunca pedi comentários, mas a possibilidade de ter um debate produtivo e empolgante acerca deste assunto me faz abrir uma exceção desta vez. Evangelion é complexo, instigante, como toda arte deveria ser. Fico por aqui, mas volto neste mesmo post, respondendo vossos comentários.