Blog do Rodrigo Ghedin

Como descobri que gostava de escrever e decidi fazer disso a minha profissão?

Hoje cedo apareceu uma pergunta muito bacana no Formspring. Esta:

“Sinceramente, eu considero os seus textos fantásticos por isso eu pergunto: Como descobriu o gosto pela escrita, e como foi o processo de aperfeiçoamento da mesma?”

Além de lisonjeado com o “textos fantásticos” (valeu mesmo, Depressao!), notei que nunca havia parado para pensar na questão. Como, com tantas possibilidades, áreas e habilidades a serem desenvolvidas, acabei pegando gosto pela e enveredando para a escrita?

Coincidentemente, há alguns dias tirei um tempo para me afundar em caixas de sapato velhas cheias de coisas bastante antigas que guardei através dos anos. Objetivo: fazer a limpa, reciclar o que não tem mais uso, reorganizar e arquivar o pouco que sobrasse. Entre os itens que encontrei nessa expedição doméstico-arqueológica estavam alguns manuscritos meus: “detonados” de jogos.

Não me recordo de ter escrito algo por conta própria, ou seja, algo que não fosse da escola, antes desses rabiscos. Entre 1996 e 2001, vivi uma fase de gamer hardcore com meu PlayStation, do tipo que comprava revistas especializadas religiosamente todo mês para se informar das novidades e jogava o que podia por tanto tempo quanto tivesse disponível.

Revistas de video game.

Estão todas à venda, aliás. Se quiser comprar alguma(s), clique na imagem.

E era justamente por essa associação, jogos e revistas, que comecei a escrever eu mesmo sobre o assunto. A maioria das revistas da época contava com “detonados”, que nada mais eram que descrições detalhadas dos caminhos a serem percorridos nos jogos, especialmente os de gêneros mais complicados, como adventures e RPGs. Sem saber uma palavra em inglês no alto dos meus 12~14 anos, dependia  das revistas para finalizar os jogos e, mais que isso, para entendê-los.

(Aliás, era engraçado como até jogo em japonês a gente encarava nessa época — “díkou, uíniiii erévi, trí!”. Tudo na base da tentativa e erro, escolhendo as opções do menu até chegar onde se queria. Quase um poliglota.)

Apesar de ajudarem, os detonados das principais publicações da época, Ação Games e Super Game Power, eram bem ruins. Não havia profundidade, não havia atenção aos detalhes, sobravam lacunas e frases soltas que acabavam exercendo efeito contrário — em vez de ajudar, davam um nó na cabeça do jogador. Tínhamos publicações mais apuradas, em especial os livros enormes da Gamers, da Editora Escala, que espremiam até a última gota do jogo em questão, mas pecavam por serem bem escassos — cada Gamers Book era reservado a um ou dois títulos e acho que a contagem de edições não chegou ao número dez…

Até hoje não sei o motivo, mas comecei a reescrever os detonados das revistas. Nunca teve serventia para outras pessoas e nem para mim, afinal, tendo jogado eu já conhecia os caminhos; acho até que ninguém jamais leu aquelas folhas divididas em duas colunas e preenchidas na frente e no verso, mas… eu fazia. E com gosto e dedicação. Desde pequeno sem vida social, coitado de mim :-(

De cabeça, recordo-me de alguns jogos que “detonei”: Silent Hill, Metal Gear Solid (esse acho até que passei para o computador), Resident Evil… Na arrumação das caixas velhas que citei no começo do texto, encontrei alguns rascunhos de Resident Evil 2. Sem entender bolhufas do que se passava na história, esses textos eram quase mecânicos, do tipo “vá ali, faça isso, pegue aquilo, siga por este caminho”. Mas senti orgulho do meu eu com a metade da idade que tenho hoje; mesmo pequenino e com um garrancho horrível que não melhorou com o tempo, ele escrevia melhor que um montão de gente mais velha. Parabéns, garoto!

Folha sulfite com o detonado de Resident Evil escrito por mim.

Detonado de Resident Evil. (Clique para ampliar)

Outro trecho do detonado de Resident Evil que escrevi quando pequeno.

Escrita mecânica, mas correta.

Outra mania que eu tinha era a de registrar dicas e truques de jogos. As mesmas revistas traziam uma seção especial com macetes, geralmente combinações de botões que destravavam facilidades nos jogos — cheats, ou “xits”, para facilitar a compreensão à geração CS. Em outra incógnita que minha versão mirim deixou de legado, até hoje não sei por que diabos escrevia tantas dicas de jogos que eu não tinha, não queria ter e, em alguns casos, sequer gostava. Precaução, talvez?

Incrível como isso resiste ao tempo...

Caderninho de dicas. (Clique para ampliar)

Dica para pegar metralhadora no Need For Speed.

Por essas e outras que os primeiros Need For Speed eram mais legais. (Clique para ampliar)

Dicas diversas para Street Fighter Zero.

Street Fighter Zero, taí um jogo que eu nunca tive — só as sequências. (Clique para ampliar)

A Internet só apareceu para mim no começo da década passada. Joguei muita conversa fora no bate-papo da UOL e, depois, no IRC antes de aprender HTML. Aliás, hoje vejo que ter aprendido HTML foi o que determinou o meu eu virtual; na época já existia o Blogger, mas o próprio conceito de blog ainda era algo um tanto nebuloso, especialmente dentro dos meus círculos de amizades, reais e virtuais — até 2004, achava blog coisa de menininha. Já um site… isso sim era incrível! Para botar algo no ar e exercer meus recém-adquiridos conhecimentos na produção de páginas web, apeguei-me à coisa que mais me interessava na época: computadores. E aí, em 23 de novembro de 2002, nasceu o WinAjuda.

Nunca fui destaque na disciplina de português, na escola. Na real, adorava apostar quem tirava as maiores notas com meus amigos nas exatas e, acredite se quiser (nem eu acredito às vezes), as disputas eram acirradas — sim, já fui bom com números. Gostava de redação, não posso negar, mas as achava mais fáceis do que prazerosas de se fazer. A minha maior dificuldade era quando a professora deixava o tema aberto; após encontrar algum, ou tendo-o pré-definido, a escrita fluía fácil e, não raro, era o primeiro da turma a terminar a lição, sempre com notas muito boas.

Da simpatia com a redação a transformá-la em profissão é uma conexão que, mesmo com todo esse background podendo servir de explicação, ainda não consigo entender com clareza. O aperfeiçoamento, porém, é fácil de explicar: treino e leitura. Alguns anos antes, por volta de 1998~1999, comecei a pegar livros na biblioteca, livros da coleção Vagalume. Desde então sempre tive por perto algum livro e, com a chegada da Internet, alguns anos mais tarde, e a descoberta de bons blogs (depois de 2004), passei a ter muita coisa legal de gente genial para ler todo dia. E a prática… bem, desde 2002 estamos aí, né?

Em 2004, sem a mínima ideia do que fazer da vida, prestei vestibulares para Administração e Direito. Passei em ambos, optei por Direito, concluí o curso sem nunca ter gostado dele mantendo, em paralelo, o WinAjuda. Cinco anos depois, às vésperas da graduação, tinha uma parceria com o iG e já encarava o site, embora negasse a mim mesmo, como trabalho — demorei um pouco para parar de me recriminar por não trabalhar na área jurídica. Enfim, outra transição sutil que jamais compreenderei totalmente.