O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino

O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino.

O visconde partido ao meio, de Ítalo Calvino.

Ao ler um título como “O visconde partido ao meio”, creio que o primeiro pensamento que se cria na maioria das cabeças seja o de uma metáfora, uma força de expressão. Afinal, dividir uma pessoa é uma experiência que, até o momento (e onde sei), jamais ocorreu de forma bem sucedida, ou seja, de forma que o partido ao meio continuasse vivo.

Contrariando essa expectativa, porém, O visconde partido ao meio (Cia. Das Letras, 2008, 2ª edição, ISBN 978-85-7164-617-9), do cubano Ítalo Calvino, narra as peripécias do vinconde Medardo di Terralba, que foi partido ao meio, literalmente. O incidente ocorreu durante uma guerra entre cristãos e turcos, no século XVII, quando, ao ser atingido por uma bala de canhão, seu corpo foi dividido, de forma longitudinal. E não só seu corpo, mas sua benevolência e maldade também, cada uma residindo, integralmente, numa das partes físicas do pobre visconde. No fim dos imbróglios iniciais, temos duas partes do visconde, uma boa, e outra má.

Ítalo diz, na orelha do livro, que a literatura deve divertir, mas também fazer refletir. E essa ideia fica clara neste livro. Por baixo das situações incomuns e estranhas dos personagens e da própria divisão caricata entre bem e mal, lê-se nas estrelinhas dilemas de ordem ética amplos, sobre como ser integral numa sociedade que, continuamente, dilacera o homem moderno. Uma ótima sugestão para reflexão, passada de forma leve e bem humorada.

O texto de Ítalo é simples, mas não é pobre. O linguajar é polido, mas as situações narradas e a forma como elas são feitas são de fácil compreensão. A temática absurda do livro sob o ponto de vista realista dá um tom surreal muito bom, o que permite ao autor chegar aos seus objetivos – divertir e fazer refletir. A única crítica é em relação ao tamanho da estória – só cem páginas, e de letras grandes. Dá para ler numa tarde, de uma vez só.

Agradecimentos à Letícia Nishimura, que me apresentou Ítalo Calvino. Decidi começar por O visconde partido ao meio, ao invés do recomendado (por ela) O barão nas árvores, por aquele ser mais barato, mas os demais títulos do autor já estão na wishlist, e em breve estarão na estante da minha mini-biblioteca. Recomendado!

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