Ontem, numa conversa de bar, o assunto “diário” surgiu e, quando questionado, respondi que tenho um.
Eu tenho um diário.
Já faz nove anos e, se quer saber, recomendo fortemente a todos que criem o hábito e mantenham suas experiências reduzidas a texto. Imagino que seja como a terapia, que infelizmente nunca fiz, só que sem as partes chatas — gastar uma nota e compartilhar sua intimidade com um estranho.

Todos nós temos segredos.
Com o tempo, o diário se torna uma fonte de recordações, uma prova viva da sua evolução enquanto pessoa. Às vezes releio coisas de oito, nove anos atrás e me questiono se aquele cara deslumbrado com a primeira namorada, indeciso e fazendo besteiras nas suas escolhas acadêmicas e cuidando do hobby que mais tarde viraria trabalho sou eu mesmo. É uma profusão de sensações e nostalgia indescritível e, até onde sei, inalcançável de outra forma.
É, também e principalmente, uma ótima forma de descarregar a mente, refletir, tomar decisões. Crescer. Pesquisando sobre o tema, encontrei este artigo que, além de listar dez motivos fundamentados para se ter um diário, acaba com um estigma comum aos ignorantes, o do “querido diário, hoje fiz isso, isso e aquilo”; não é bem assim:
“Em geral, as pessoas resistem a manter um diário porque elas pensam que não são boas escritoras o bastante, que alguém lerá seus pensamentos mais profundos [mais sobre isso abaixo] ou que têm coisas mais importantes para fazer.
Mas em vez de pensar num diário como um diário — um livro no qual você meramente relata os eventos do dia —, pense nele como uma caixa selada para auto-reflexão, auto-expressão e auto-exploração. Recontar os eventos do dia é menos relevante que o ato de expressar seus pensamentos. E escrever reflexões sobre os eventos experimentados todo dia é uma maneira inestimável de avaliar seu desempenho, definir padrões elevados de excelência e encontrar novas maneiras de resolver problemas difíceis.”
Além do desenvolvimento pessoal, como alguém que lida profissionalmente com a escrita ter um diário me ajuda a manter o hábito e aperfeiçoar o manejo com as palavras. Tudo bem que já faço isso, de uma forma ou de outra, nas publicações com as quais colaboro; mas a escrita íntima é diferente. É mais difícil. Instiga a mente, te desafia a ser ousado, a escrever sem medos ou receios. É quase libertadora.

Seja você. Encontre-se. Seja feliz com isso.
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Quase 512 anos de Brasil e o ar ainda está contaminado de preconceito e estereótipos, dos mais declarados aos enraizados e tidos comuns, como o “azul para menino, rosa para menina”. Nossa sociedade é extremamente machista. Ainda é. E maliciosa, do tipo que vê duplo sentido até onde não tem, tira conclusões perversas de ações inocentes, coisas assim. Do tipo que acha que diário é coisa de menina adolescente que sonha com o vocalista da boy band do momento.
Ahn… não, não é bem assim. E não estou sozinho ao ressaltar as vantagens e o auto-conhecimento desencadeados por essa solitária atividade. Acompanho de longe (o meu é offline) o Penzu, uma plataforma online de diário, e eles têm algumas páginas destinadas a mostrar as vantagens da atividade, bem como pessoas inspiradoras que mantinham os seus arquivos pessoais. Kurt Cobain, Anne Frank, Christopher McCandless (do filme/livro “Into the Wild”) são alguns exemplos. No cinema, ainda tem Evan, do celebrado “Efeito Borboleta” — e, poxa, eu desejei muito poder voltar às situações dos meus rabiscos quando assisti ao filme; quem não? E há tantos outros, homens, velhos, famosos, anônimos, com seus diários… Pessoas mais completas por causa deles, certamente.

Nunca sacrifique quem você é só porque alguém tem um problema com isso.
Claro que, ontem, virei motivo de chacota no bar pela minha declaração. Faz parte, faz parte… Eu poderia mentir, a noite seguiria da mesma forma só que sem as piadas, mas quer saber? Não tenho vergonha disso. Sequer um pingo. Se eu fosse homossexual, o que não é o caso, não seria por causa de um diário; são coisas sem relação alguma. Gente que acha que diário é coisa de menina ou de gay é o mesmo tipo de gente que acha que homem que é homem não usa camisa cor-de-rosa.
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Se essa confissão lhe animou a começar um diário também, tenho certeza que a primeira coisa que passou pela sua cabeça foi o “…mas e se alguém ler?”. É o maior medo de quem mantém um documento assim, de verdade.

Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?
Felizmente a tecnologia está aí para nos ajudar. Temos o Penzu, que é online, e soluções ainda mais seguras. A que eu uso? Documentos do Word protegidos com criptografia pesada (256 bits) num disco oculto, tudo com a ajuda do TrueCrypt. Ainda que esses dados sejam roubados de alguma forma, a pessoa interessada levaria algumas décadas ou até séculos para quebrar a proteção usando força bruta. E, sinceramente, meus segredos não valem tanto esforço ;-)
Escrevi um tutorial no Gemind sobre como criptografar arquivos com o TrueCrypt. Se quiser uma camada extra de segurança, o próprio Word fornece um sistema de criptografia embutido que, nas últimas versões, tornou-se bastante robusto e confiável. A Microsoft ensina como colocar senha neles. As recomendações são não anotar a senha em lugar algum, escolher uma forte e aleatória (ou seja, que não conste no dicionário) e da qual você se lembre, pois a mesma dificuldade que um xereta teria em quebrá-la, você também terá caso a esqueça.
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Se você faz algo legal, lícito e que faz bem, mas que os outros reprovam ou tiram sarro, assuma. 99% das piadas de ontem sobre o meu diário era que isso é “coisa de menininha” e tudo mais, ou seja, além do diário em si, o próprio sarro encerra outro preconceito muito comum da nossa sociedade. E muito babaca, diga-se.

Dane-se o que eles pensam.
Como combatê-lo? Ignorando. Esse tipo de coisa é igual apelido: se você não dá bola, toda a graça acaba. Sou e sempre fui muito seguro quanto à minha sexualidade e não vejo problema algum em manter um diário, logo, por que deveria me incomodar ou mentir? Para parecer machão na frente de amigos e desconhecidos? Nah… Meu eu de nove anos atrás certamente teria vergonha, talvez até mentiria. Sei disso porque dia desses reli meu diário de outrora e, cara, como eu era bobo.
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As belíssimas imagens que ilustram este post vêm do I Can Read, um tumblr delicioso.