The Daily é a reinvenção da roda

Muito oba-oba ontem por conta do lançamento do The Daily, jornal digital exclusivo para o iPad da lenda americana das comunicações Rupert Murdoch, dono da News Corp. Por US$ 0,99 semanais (duas primeiras semanas gratuitas), os assinantes receberão edições diárias, incluindo domingos e feriados, com mais de 100 páginas cada.

Temos, aqui, o jornal mais caro do mundo. Afinal, nada, nada, um iPad não sai por menos de US$ 500. Compreendo que ele pode e certamente é usado para outras finalidades, mas relevemos esse detalhe em prol do nosso contexto.

O que mais me intriga, na realidade, é a real (des)necessidade de algo nesse estilo. A mim, parece apenas que Murdoch está aproveitando o hype em torno dos tablets para chamar a atenção. Porque, sinceramente: qual o apelo de um produto como o The Daily?

É um jornal digital. Bacana. A ideia só está uns quinze anos atrasada. The New York Times, Washington Post, The Wall Street Journal, só para ficar em exemplos norte americanos, também são jornais digitais. E mais, são jornais, em menor ou maior grau, com mais vantagens do que desvantagens em relação ao The Daily.

Para começar, ainda que alguns cobrem parcialmente pelo conteúdo que oferecem, todos têm generosas porções gratuitas. O leitor não fica preso a um dispositivo e/ou sistema, ele pode consumir a informação de qualquer coisa que se conecte à Web, até geladeira. Ainda existe o fator tempo real; não é preciso esperar uma atualização, uma nova edição, qualquer coisa que seja para ler as últimas notícias, basta um clique no F5 (ou no botão de atualizar), só.

E o The Daily? Qual a grande vantagem do salvador das publicações impressas em transição para o meio digital?

Uns podem dizer que é a interatividade. Ok. Fosse há dez anos, quando Flash só servia para fazer cartoon e vídeo demandava a instalação de um plugin bugado do Windows Media ou RealPlayer (argh!), seria um argumento M-A-T-A-D-O-R. Hoje? Faça-me o favor…

O YouTube está aí, com resoluções tão altas que nenhum monitor disponível a nós, meros mortais, é capaz de exibir. Infográficos ricos, inclusive sem o uso de Flash, são encontrados em qualquer site. Enquete, testes, pesquisas, efeitos bonitinhos… JavaScript é do bem e muita gente o usa com consciência, no braço ou via frameworks pra lá de amigáveis. E não bastasse tudo isso, existe uma tonelada de documentação para deixar o site ainda mais bonitinho no iPad. A Apple ajuda, sem cobrar nada a mais por isso — até o momento, porque… né? vai saber?

O que acho mais engraçado é que, alguns anos atrás, quando padrões Web começaram a ganhar relevância junto com a turma do tableless e navegadores diferentes do IE, uma das promessas era ter o mesmo conteúdo em plataformas e dispositivos diferentes, adaptado a cada um deles via folhas de estilo. Hoje isso já é possível! O The New York Times, por exemplo, lançou um “Web app” na Chrome Web Store que é basicamente uma nova cara para as mesmas notícias e artigos que são publicados no site “convencional”.

The New York Times para Chrome: mesmo conteúdo, apresentação diferente.

The New York Times para Chrome: mesmo conteúdo, apresentação diferente. (Clique para ampliar)

É algo mágico que desenvolvedores e grandes conglomerados de comunicação estão deixando de lado por… por que mesmo? Alguém me explica? Fora a atenção exagerada que a mídia dá para qualquer pum que saia para o iPad/iPhone (literalmente), nada justifica essa restrição por plataforma, esse retrocesso.

A News Corp. está reinventando a roda. E vai fracassar. Como, aliás, todas as outras publicações digitais criadas exclusivamente para o tablet, mesmo as promissoras, com algum sentido de existir, como a Project Magazine, fracassaram. Uma revista? Legal, você tem matérias mais apuradas e ricas, semanalmente. Um jornal? …

2 thoughts on “The Daily é a reinvenção da roda

  1. Eu não entendo essa fixação por jornais interativos. Isso só funciona naqueles vídeos de conceitos futuristas.

    Notícias atualizadas automaticamente? Comentários em notícias? Animações bonitinhas? Vídeo embutido? Ei, isso já existe hoje! E pode ser acessado (em teoria) a partir de qualquer dispositivo com acesso internet.

    Também acho que foi muito buzz para pouca coisa. Pagar uma assinatura para receber um conteúdo acessível somente por um iPad? Não, obrigado. Prefiro continuar com meu RSS (que não está nem um pouco morto).

    • Eu acredito, ou melhor, quero acreditar que quem investe nisso aposta no hype, e apenas nele, pra coisa decolar. Não tem outra explicação crível para essa fixação (termo bem colocado!).

      []‘s!

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