Archive for the ‘Literatura’ Category

Turma da Mônica Jovem

Friday, October 3rd, 2008

Sei que é assunto velho, mas não podia deixar de escrever sobre a Turma da Mônica Jovem, a mais ousada jogada de Maurício de Souza e cia. relativa ao lendário quarteto do Bairro do Limoeiro.

A nova revista se passa no futuro, quando Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali são adolescentes. Muita coisa mudou desde que eles eram crianças, a saber: Mônica está calma (e gatinha); Cebolinha tem cabelo, fala certo e agora se chama “Cebola”; Cascão virou maloqueiro, curte esportes radicais e toma banho; e Magali não é mais tão voraz quanto na infância, tudo para conservar o corpinho - nas palavras da própria. O traço dos desenhos também mudou, sendo agora em “estilo mangá”, embora a leitura seja a ocidental, ou seja, da esquerda para a direita.

Tudo novo, muitos paradigmas quebrados, mas o que importa, mesmo, é se o resultado ficou bom. Bem… então… Eu não gostei. A primeira edição força muito nos novos hábitos e estilos, de modo que parece que as crianças saíram dos sete anos direto para a adolescência. Claro que isso é proposital, para mostrar as novidades aos leitores, mas poderia ser feito de maneira mais sutil.

O traço até que ficou bom, especialmente quando os desenhistas lançam mão de caricaturas e situações típicas do mangá, usadas geralmente para demonstrar espanto, irritação ou constrangimento. Aliás, não acharia nada ruim transportarem tais recursos visuais para a revista tradicional, das crianças. Elas ficariam (ainda mais) divertidas.

Estilo mangá.

Estilo mangá.

O enredo é muito fraco… Envolve muita ação e aventura, e blablablá. Essa coisa que publicitários insistem em escancarar nas propagandas de produtos infantis, mas que as próprias crianças detestam. Tipo tiozão querendo dar uma de meninão. Voltando ao roteiro, na primeira edição, única que li até o momento (e, acho eu, para sempre), rola um negócio envolvendo artefatos místicos, cavaleiros do Japão, e outras bizarrices parecidas. Ah sim: os pais dos aborrecentes são cavaleiros predestinados a proteger o mundo da rainha malvada japonesa. Nem nos meus piores devaneios vislumbrei o seu Cebola ou a dona senhora mãe da Mônica empunhando espadas e prontos para a porrada.

Turma da Mônica Jovem chama a atenção por tentar recriar algo muito popular sob uma ótica mais adulta. Só que falha miseravelmente nisso justamente por não conseguir se desvencilhar do jeitão infantil dos quadrinhos do Maurício. E, infantil por infantil, fico com as crianças de sete anos, cujas revistas são assumidamente para crianças, e por isso mesmo, descompromissadas e divertidas, como tudo que é bom na vida.

***

PS: algumas passagens dessa primeira edição conseguem ser mais bizarras que a própria idéia de apresentar a Turma da Mônica jovem. Vejam esse diálogo no mínimo duvidoso entre Cascão e seu pai:

Adolescência, demora no banheiro, gel... gel, né?

Adolescência, demora no banheiro, gel... gel, né?

O Cebolin… digo, Cebola, está bem malandrão, conforme tais passagens demonstram:

Dentes? Que desculpa horrível...

Dentes? Que desculpa horrível...

Magali estraga-prazeres...

Magali estraga-prazeres...

As novas regras da língua portuguesa

Monday, September 22nd, 2008
Foto: Paulo Brabo (via Flickr).

Foto: Paulo Brabo (via Flickr).

A partir de 2009, a língua portuguesa sofrerá muitas mudanças, em todos os países que a adotam como língua oficial. A intenção de tais mudanças é unificar o idioma, diminuindo um pouco as muitas diferenças existentes entre os países.

Embora no Brasil as mudanças sejam menos drásticas que em Portugal, ou seja, embora aqui o português “atual” seja mais parecido com o unificado que começará a valer ano que vem, muita coisa vai mudar. Além do retorno das letras K, W e Y, muitos acentos foram limados, incluindo o eterno injustiçado trema, e várias palavras compostas que antes utilizavam hífen, como auto-escola, o perderão (portanto, o certo será autoescola).

O iG, primeiro grande site brasileiro a adotar as novas regras, publicou um infográfico que mostra o que muda e o que permanece com elas. Vale a pena ler, pois todas as mudanças, em todos os países, estão lá, mostradas de uma forma bastante didática, de fácil entendimento. Se preferir algo mais profundo, essa apostila, em *.pdf, é uma boa pedida. É da mesma equipe que mantém o dicionário Michaelis.

Confesso que foi um baque receber essa notícia. Escrevo todo santo dia, e saber que muitas coisas com as quais estou acostumado mudarão, foi meio impactante. É hora de voltar ao estudo, passar algum tempo escrevendo com as dicas mostradas no infográfico a tiracolo, até que todas as novidades deixem de ser novidades.

Particularmente, preferia do jeito antigo. O português é, de fato, muito complexo, mas parte do seu charme está nisso. Não sou nenhum expert no idioma, porém acho bonito, elegante até, escrever corretamente, usar a abusar de recursos que, embora possam parecer estranhos, até errados, estão em consonância com a norma culta. Mais do que aprender a escrever segundo as novas regras, a maior demora será no acostumar-se com elas. Afinal, linguiça, geleia e veem me parecem, por ora, absolutamente erradas.

Precisamos falar sobre o Kevin, de Lionel Shriver

Saturday, August 9th, 2008
Precisamos falar sobre o Kevin.

Precisamos falar sobre o Kevin.

O filósofo italiano Cesare Lombroso defende, na teoria do criminoso nato, que criminosos assim o são desde o nascimento, ou seja, que ser criminoso é algo determinado por características biológicas, tal qual ocorre com deficientes mentais congênitos. Não importa o meio em que viva, nem a formação que tenha, ele continuará assassino, pois nasceu com essa inclinação, é algo inerente à sua própria existência. Outros pensadores do passado comungavam deste pensamento, mas é fato que, hoje, ele é visto com maus olhos, afinal, é meio impossível prever que alguém será criminoso analisando o tamanho do seu fêmur ao nascer, não??

Precisamos falar sobre o Kevin (We need to talk about Kevin, Intrínseca, 2007, ISBN 978-85-98078-26-7), romance de Lionel Shriver, resgata essa idéia, e a mostra com tal ferocidade que, por alguns momentos, durante a leitura, é impossível discordar da teoria de que existem, sim, aqueles nascidos para o mau. O perverso Kevin, desde a sua concepção, demonstra sinais de malvadeza explícitos, evidentes para a rejeitada mãe, Eva, e acobertados sob a forma de mal entendidos pelo amor abestalhado de seu pai, Franklin. (more…)


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