Estudar Direito à s vezes é deveras interessante. Descobrimos curiosidades bacanÃssimas sobre os mais variados assuntos, já que, como todos sabem, o Direito incide sobre praticamente tudo. Bem ou mal, é a regulamentação da vida em sociedade, e como todos sabem também, ninguém vive sozinho, logo, todos vivemos em sociedade.
Estudando direito de famÃlia, deparei-me com uma curiosidade interessante. Todos conhecem o xingamento “filho da mãe”, certo? Atualmente, ele é usado para ofender alguém levemente, substituindo o pesado “filho da p*ta”. Muitas pessoas não sabem a origem deste xingamento, e acredito que a maioria delas surpreender-se-ia se soubessem que, há algum tempo, este era um xingamento tão ou até mais pesado que o filho de prostituta.
O culpado e criador indireto do “filho da mãe” é o antigo Código Civil (Lei nº 3.071/16), promulgado em 1916, e que foi revogado pelo novo Código, de 2002. Este quase centenário diploma distingüia filhos legÃtimos, frutos do casamento, daqueles tidos fora dele, fosse por adoção, fosse através de casos extraconjugais. Aos legÃtimos, todos os direitos; aos bastardos, nada. Essas crianças eram registradas apenas pela mãe, não tendo direito a absolutamente nada do pai, sequer o sobrenome. Ser “filho da mãe” era uma tristeza, uma vergonha, e ser chamado assim, um insulto.
O novo Código Civil (Lei nº 10.406/02), em seu artigo 1.596, diz expressamente que todos os filhos têm direitos iguais, independente da “procedência”:
Art. 1.596. Os filhos, havidos ou não da relação de casamento, ou por adoção, terão os mesmos direitos e qualificações, proibidas quaisquer designações discriminatórias relativas à filiação.
Ou seja, no nosso contexto, o novo Código acabou legalmente com a eficácia do xingamento “filho da mãe”. Hoje, o “filho da mãe” chegou a tal nÃvel que nem pode mais ser considerado um xingamento… Sua única utilidade é servir de tradução para “son of bitch” nas legendas de filmes estrangeiros.
Sim, sei que é um assunto besta, mas cultura inútil nunca é demais, não?
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Há pouco mais de um ano, estava eu na locadora pegando o filme Sin City, baseado na obra literária homônima de Frank Miller, com uma expectativa imensa sobre o mesmo. A única coisa que havia lido do referido quadrinista era (e ainda hoje é) O Cavaleiro das Trevas, o quadrinho revolucionário dos anos oitenta que redefiniu o Batman. Apesar de toda a empolgação, foi uma decepção só. Ainda que muitos veÃculos de comunicação praticamente endeusem Sin City e seu estilo absolutamente fiel aos quadrinhos, eu particularmente achei uma grande porcaria.
Passado algum tempo, depois de fazer um sucesso estrondoso nos cinemas, chegou à s locadoras V de Vingança, outro filme baseado numa graphic novel, só que desta vez do autor Alan Moore (embora o nome dele não apareça nos créditos, e ele recuse compulsivamente qualquer associação de seu nome ao filme - leia o segundo parágrafo deste texto). Apesar de, segundo entendidos, haverem discrepâncias marcantes entre os quadrinhos e o filme dos irmãos Wachowski (sim, os mesmos de Matrix), analisando o filme como tal, um simples e mero filme, ele é bem digerÃvel, divertido e empolgante. Enfim, um Hollywood puro sangue.
Algum tempo depois, acompanhando alguns sites de cultura inútil, fiquei sabendo que a nova empreitada era transportar para as telonas 300, outra obra de Frank Miller, calcada na lendária Batalha das Termópilas, onde trezentos espartanos, liderados por Leônidas, se voltam contra o exército gigantesco do deus-rei persa Xerxes, em busca de liberdade. O receio de que tentassem, a exemplo de Sin City, fazer um quadrinho com movimento, meio que tirou minha empolgação com relação ao filme. Mas bastaram alguns trailers para que ela voltasse, e com força total.

Também não li a HQ de 300, mas logo nos primeiros minutos de filme vê-se claramente a influência daquela neste. Tudo conspira para torná-lo épico - cenário, personagens, enredo -, mas tudo parece meio vazio, estranhamente quadrinizado, paradoxal à idéia grandiosa a qual o termo “épico” remete. É difÃcil explicar, mas a sensação é de que faltaram figurantes para determinadas cenas, e que os cenários, todos criados em computadores através da técnica Chroma Key (valeu Issamu!), são excessivamente artificiais, como em Star Wars II: O ataque dos clones (mas infinitamente mais bonitos). Felizmente essa sensação, pelo menos a mim, se restringiu aos primeiros minutos de exibição. Quando os soldados partem para a batalha, o cenário adquire constância, integrando-se perfeitamente à atmosfera proposta, complementando, com excelência, a exuberante beleza visual do longa.
Beleza, aliás, é um dos destaques de 300. A fotografia é de tirar o fôlego, a grandiosidade de determinadas cenas, chega a perturbar. Não há pudor barato, há sangue (virtual) jorrando sem parar nas que podem ser consideradas algumas das melhores cenas de batalha com espadas da história do cinema. Você fica extasiado logo na primeira, quando Leônidas desembesta e sai retalhando os persas, com efeitos de câmera em slow motion e closes estratégicos. É belÃssimo de se ver!
Gerard Butler simplesmente destrói interpretando Leônidas. Seu vigor, seus berros entusiasmantes e poderosos, criam uma espécie de aura mÃtica acerca da personagem. E falando em atores e coisas do tipo, Rodrigo Santoro está lá, mais estranho do que nunca. A menos que Butler seja muito baixinho, o brasileiro foi esticado, pois parecia ter uns três metros de altura. Sua voz, também, é deveras estranha. Cheguei a formular uma teoria de que ele foi dublado no filme, mas logo depois, lendo uma das crÃticas do Judão (que, aliás, fez um especial completÃssimo do filme), descobri que a voz do brasuca foi modificada digitalmente, a fim de ter o tom “doce e forte como o trovão” que a HQ diz ter. Enfim, ele fala bastante, tem participação ativa, e até cumpre bem seu papel. Todavia, não sei se por implicância minha, ou se por ele ser ruim mesmo, sempre que o via na tela tinha aquela sensação de estar vendo novela das oito.
O longa é estupendo, o desenvolvimento impecável, e o final, de arrepiar os pêlos da nuca. O enredo, aliás, mistura narração em terceira pessoa, na voz de Dilios (David Wenham), com os próprios eventos da trama, sendo que ambos vez ou outra se encontram. O efeito final é muito bacana. Se vale a pena? Muito. Não arrisco dizer ser o melhor filme baseado em quadrinhos já feito (Homem Aranha me impede), mas um dos melhores, com certeza é. Este é o tipo de filme que ficará gravado na memória como o filme, parte da resposta à irrespondÃvel questão “quais os seus filmes preferidos?”, paradigma para quaisquer longas épicos que venham a surgir a partir de agora. Enfim, um filmaço.
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Adorada pelos masoquistas, fermento para belas obras, companheira dos mal amados. A solidão, ainda que dolorosa e desumana, tem um papel marcante na vida de todos nós. Até o mais animado dos fanfarrões tem seus momentos solos, onde a única companhia, se é que pode assim ser chamada, é a consciência. Momentos onde nada exterior importa, onde remoer fatos passados é a única atividade possÃvel, onde é só você e você mesmo.
Gabriel GarcÃa Márquez, como o próprio se define, é um escritor solitário. Dizia ele que todo escritor, por mais livros que redija, está sempre a escrever um só, sendo que o seu é o livro da solidão. O colombiano, prêmio Nobel de literatura em 1982, deu à luz a obra Cem anos de solidão, já comentada e enaltecida por outros bloggers, com todos os méritos.
O livro narra a trajetória dos BuendÃa, famÃlia simples de um paÃs qualquer da América Central que, junto com outras e movida pela excentricidade de seu patriarca, José Arcadio BuendÃa, cria um povoado denominado Macondo, que dali a algum tempo se transforma em cidade, prospera, atinge seu ápice, cai em decadência, retorna aos dias de glória, e assim vai, em altos e baixos. Várias gerações da famÃlia são mostradas no livro; na realidade, todas elas, a partir de José Arcadio BuendÃa, o são.
Conta o próprio GarcÃa Márquez que este livro é uma mera tentativa de reproduzir as estórias que sua avó contava na sua infância. Esta forte influência fica clara nas partes fantasiosas da obra, e salvo uma ou outra discrepância, muitos hão de reconhecê-las, com outros nomes, locais e datas. A verdade é que Cem anos de solidão é um livro absolutamente fantástico. Há muito tempo não lia algo tão prazeroso, despretensioso e suave. GarcÃa Márquez tem um dom espetacular de medir palavras, transmitir, sob a forma de letras, tranqüilidade, surpresa e alegria. Sua sensibilidade para com a escrita chega a ser assombrosa ante a qualidade do seu texto.
Mesmo que você se confunda com vários Aurelianos, Josés Arcadios e outros homônimos tão comuns no livro, não se intimide e vá em frente. Não se trata de um livro técnico, ou de um romance com uma trama complexa, mas apenas de uma fábula moderna adaptada a um bem feito e sólido contexto. Cem Anos de Solidão é, se não o melhor, um dos melhores livros que já li. E olha que foram muitos.
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