Archive for the ‘Cultura’ Category

O caso dos exploradores de cavernas, de Lon L. Fuller

Friday, July 13th, 2007

Todo curso superior possui aqueles livros-base, os quais o calouro deve ler sob pena de, não o fazendo, passar vergonha em conversas acadêmicas no futuro. No Direito não é diferente, e dentre esses títulos, existe um bem pequeno e que dá uma boa idéia do quão subjetivo é esta ciência: O caso dos exploradores de cavernas, escrito por Lon L. Fuller.

No livro, que se passa no século XLIII, um grupo e exploradores de cavernas fica preso numa após um desmoronamento. Ficam ali durante semanas e, para não morrerem de fome, decidem tirar a sorte: o perdedor dará a vida pelos outros, literalmente, já que servirá de alimento para eles. Curiosamente, Roger Whetmore, o homem que sugeriu tal solução para o problema da inanição, é o “premiado”. Depois que conseguem sair da caverna, os sobreviventes são processados, e como naquele país o homicídio é punido com a morte, os cinco magistrados responsáveis pelo julgamento se vêem numa situação bastante delicada.

O livro consiste, basicamente, nos relatórios dos cinco juízes, com seus respectivos votos. É interessante notar como um consegue derrubar o voto do que o precede. A coisa funciona mais ou menos desse modo: você lê o primeiro voto, e concorda com ele; aí lê o segundo, que discorda do primeiro, e concorda com ele também; e assim sucessivamente. Claro, algumas justificativas são descabidas (especialmente as do direito natural em virtude do isolamento dos réus, e do contrato sobre a morte), mas no geral os votos são bem coerentes.

Há passagens do livro incompatíveis com nosso Direito, como o já citado contrato sobre a vida - ou seja, todos concordaram previamente que o perdedor fosse morto, o que excluiria a responsabilidade dos demais. A vida é o bem maior tutelado pelo Direito, logo, é indisponível, não pode ser objeto de apostas ou contratos. Mas isso não interfere decisivamente na história; sob o prisma do Direito contemporâneo, tal passagem pode ser vista como um devaneio, ao passo que basta ignorá-la para dar continuidade à leitura.

O caso dos exploradores de cavernas.A edição que li, da editora de Sergio Antonio Fabris, não é ruim… É péssima. Traz palavras escritas de forma errada, letras trocadas e, o que achei mais pavoroso, uma página repetida. Dá a impressão de que não houve revisão…

O livro é recomendado a todos que estudam Direito e àqueles que se interessam pelo assunto. O dilema retratado no livro é de se fazer pensar muito, e tal conseqüência é sempre positiva para nosso crescimento particular.

Falando em particularidade, darei meu voto, caso tivesse que julgar este caso: absolveria os réus com base na excludente estado de necessidade. Tal instituto não foi cogitado em nenhum momento no livro, embora eu tenha ficado com a impressão que lá ele estaria enblobado na legítima defesa. Mas enfim, é isso.

SPOILER! E se quer saber como fica a votação, arraste o mouse a partir daqui: um juiz se abstém do voto, dois votam a favor da manutenção da sentença, e dois no sentido de reformá-la. Com o empate (quatro a quatro), os réus são condenados à morte.

Boa leitura!

A música tem um fim?

Sunday, June 3rd, 2007

Música.Hoje, durante o almoço em casa, surgiu o seguinte assunto na mesa: teria a música um limite? À medida em que canções são criadas, torna-se mais difícil aos compositores criar novas músicas diferentes das já existentes?

Eu defendi a teoria de que não, a música não terá um fim, e que novas canções geram novas canções, num processo estilo gremlins molhados: quanto mais se cria, mais se cria.

Meu pai, por sua vez, defendeu a teoria contrária, a de que quanto mais músicas criadas, mais complexo se torna o trabalho do compositor, no sentido de criar algo inovador, livre de clichés e influências explícitas de obras existentes.

Em suma, defendi a capacidade praticamente infinita de criar do ser humano, e meu pai, a limitação aparente e, por vezes, existente da nossa espécie.

O assunto durou o almoço inteiro, e no final nenhum dos dois deu o braço a torcer. Como aqui é um espaço nobre, com leitores de alto nível (salvo raras exceções), resolvi trazer o debate para cá.

E aí, o que vocês acham?

Ps: não, não havia bebida alcoólica na mesa durante o rango.
[tags]Música, Composição, Criatividade[/tags]

Linkin Park, do Hybrid theory ao Minutes to midnight

Sunday, May 27th, 2007

Quando descobri a Internet, e conseqüentemente, o mundo da música, me encantei com as bandas norte americanas. Encabeçando sem-cérebros como Blink-182 e Limp Bizkit, estava o Linkin Park, minha banda favorita durante um longo tempo.

Linkin Park - Hybrid Theory.Na época em que tive o primeiro contato com as faixas do CD de estréia da banda, o Hybrid Theory (2000), achei o máximo a mistureba de estilos que eles faziam, cumulada com os gritos potentes do Bennington e a inclusão de batidas eletrônicas (ou qualquer coisa do tipo) no meio das melodias. Era, para mim, algo realmente inovador, diferente de tudo que eu já havia ouvido, e exatamente por isso, irresistível. Era, na verdade, um novo estilo musical, o new metal. Quando meus ouvidos agüentavam coisas desse nível, praticamente todas as faixas desse álbum estavam dentre as minhas prediletas. Exceção a isso só a With you, Crawling e Forgotten.

Linkin Park - Reanimation.Passado algum tempo, saiu o Reanimation (2001), uma reinterpretação das músicas do Hybrid Theory, com diversas participações especiais. Tudo bem que, dessas participações especiais, a única que eu conhecia era o Jonathan Davis, vocalista do Korn, mas isso é um mero detalhe. Essa experimentação não me agradou, pois eles puxaram muito para o rap, não por acaso, a porção deles que eu menos gosto. De positivo neste disco, um clipe muito bacana em CG, da música Points of authority, e a reinterpretação da Pushing me away, de longe a melhor faixa do Reanimation.

Linkin Park - Meteora.O segundo disco de inéditas, Meteora (2003), embora não tivesse mais consigo a vantagem do fator surpresa, conseguiu manter o nível e o estilo já consagrado da banda. Acho que foi o álbum que mais repercutiu, com direito até a Faint tocando na novela das oito. Aqui minha mudança de gosto musical, saindo do new metal e entrando aos poucos no indie e rock alternativo, estava começando, e talvez por isso o impacto do Meteora não fora tão grande quanto o do Hybrid Theory na minha vidinha. Todavia, tal qual todos os anteriores, também comprei o CD original, o último deles. Esse álbum tem músicas boas, algumas das quais ainda hoje ouço de bom grado, como Lying from you, Breaking the habit (favorita desse álbum) e Nobody’s listening.

Ainda em 2003, saiu o Live in Texas, primeiro ao vivo do Linkin Park. Até cogitei comprá-lo, mas o preço proibitivo (R$ 50,00) me impediu. Cheguei a ouví-lo, e é bacana e tal, mas enfim, mais do mesmo, e ao vivo. Não vale a pena.

Live in Texas — Collision Course — Fort Minor (The Rising Tied).

E assim, o tempo passou. Nele, o Linkin Park se juntou ao Jay-Z e produziu a maior merda da história da banda, o Collision Course (2004), uma nova reinterpretação de alguns clássicos, com a (nojenta) participação do Jay-Z. Para mim, foi o fundo do poço. Pior que isso, só aquele projeto do Shinoda (cantor-rapper-produtor da banda), o Fort Minor, cujo disco de estréia, The Rising Tied (2005), é uma imensa droga. Mas como é o projeto de um membro só, desconsidero-o.

Nem lembrava mais do Linkin Park, vejam só. Ando ouvindo um pouco de Limp Bizkit (Nookie é ótima!), e só quando erro a banda, e clico em Linkin Park, ouço-a. Porém, como que por ação do destino, navegando num site qualquer me deparei com um nome estranho: minutos para a meia noite. Em inglês, trata-se do título do novo álbum da banda, o Minutes to midnight (2007). Antes de analisá-lo, um comentário na lata: quatro anos de silêncio fizeram muito bem a eles.

Linkin Park - Minutes to Midnight.

Assim que coloquei para tocar o novo CD, e ouvi a segunda faixa (a primeira é só uma introdução), Given up, imediatamente me veio a lembrança da Grey Daze, a falecida banda do Chester Bennington, que surgiu e morreu antes do Linkin Park. Bem menos rap, bem menos batidas eletrônicas; mais guitarras nervosas, (ainda) mais destaque para a voz do Bennington. Com essa fórmula, o Linkin Park conseguiu se renovar.

Muitos fãs se revoltaram com a mudança. De fato, está bem diferente do jeito Linkin Park de ser, mas isso, pelo menos a meu ver, foi bom. Funcionou bem melhor que outras guinadas radicais, como por exemplo, a que os Cardigans fizeram no Long gone before daylight. Talvez seria interessante manter um certo foco na influência da música eletrônica, mais pela nostalgia do que pela qualidade, mas enfim, não afeta a qualidade a sua ausência. E quanto ao rap, dane-se ele. Está bem melhor assim, com o Shinoda interferindo bem menos (ouvi pouco, e até agora, só notei ele na quarta faixa, Bleed it out - e até que ficou bom no contexto).

Ainda ouvirei bastante esse Minutes to midnight. Nele, o Linkin Park está bem mais maduro. Acabou com aquela imagem de banda decadente que ficou após o lançamento do Collision Course, definitivamente. Até pela arte da capa vê-se um grupo mais polido, direcionado, experiente. E eu fico muito feliz com isso, pois querendo ou não, essa banda marcou minha adolescência. Vê-la evoluindo, lapidando seu som, mudando onde tem que mudar, é deveras gratificante. Há alguns anos, dizia que Linkin Park era o tipo de banda da qual eu jamais enjoaria. O Collision Course, juntamente com outras influências com que tive contato então, meio que fizeram eu engolir essa afirmação estúpida (admito). O novo CD da banda, porém, talvez seja a contra-resposta da banda, do tipo “vem cá, antigo fã, a gente tem muita consideração por você”. E eu, obviamente, só posso responder uma coisa: “obrigado!”.

[tags]Linkin Park, Minutes to Midnight, Hybrid Theory, Meteora, Chester, Bennington, New metal[/tags]


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