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Os Trapalhões e a decadência cultural

Ontem fui assistir a uma apresentação no teatro municipal de Paranavaí. O espetáculo Chico Buarque e o Teatro, do grupo maringaense Cottonete Clube, é uma visita à obra tetral do multitarefa Chico Buarque de Holanda, uma belíssima mescla de suas músicas com peças nas quais ele participou.

Dentre tantas peças, A Ópera do Malandro foi citada. Foi para ela que Chico compôs a música Terezinha:

Aos menos cultos e um pouco velhos, a primeira referência a esta canção que vem à mente é a clássica esquete dos Trapalhões. Na paródia, Didi faz o papel de Terezinha, e Zacarias, Mussum e o próprio Didi, o papel dos três candidatos. É um clássico incontestável do humor brasileiro:

Ontem, algumas horas antes da apresentação, passou isso na Globo:

Chega a ser assustadora a mudança. O primeiro quadro consegue transmitir cultura de uma forma leve, praticamente transparente, passível de captar e entreter até o mais avesso a música popular brasileira – e ainda engraçadíssima. Já o segundo, de 2009, mostra os maiores astros dos últimos tempos da última semana, numa piada sem graça, e que não agrega nada ao telespectador, sequer um sorriso amarelo.

Falar mal do atual (inexistente) humor do Didi é chutar cachorro morto. Ontem, enquanto ouvia Terezinha no teatro, e lembrava, saudoso, dos velhos e bons tempos dos Trapalhões que não voltam mais, e da decadência que os remanescentes do quarteto encontram-se, senti um misto de nostalgia, tristeza e felicidade por ter pego a fase boa de Didi e companhia.

Wolverine e os X-Men

No final do ano passado, a Marvel lançou um novo desenho dos X-Men, batizado de Wolverine e os X-Men. Como o nome deixa claro, a série é focada no caça-níqueis Wolverine, e pega rabeira no longa metragem baseado no personagem, com lançamento marcado para 30 de abril (aqui no Brasil). Apesar desse foco incomum, afinal, Logan é conhecido pelo seu temperamento arredio e instável, “qualidades” pouco apreciadas num líder, o desenho é divertido.

Wolverine e os X-Men.

Wolverine e os X-Men.

Tudo começa com uma explosão no Instituto Xavier, que afeta e some com os dois mutantes telepatas do local, o próprio Professor Xavier e Jean Grey. Um ano se passa, e então Wolverine decide reunir os X-Men novamente para enfrentar e, na medida do possível, contornar a crescente raiva mútua entre mutantes e humanos. Paralelamente a isso, eles buscam os amigos desaparecidos.

Wolverine e os X-Men tem como principal mérito respeitar os personagens e eventos dos gibis. Gibis que, particularmente, li muito pouco, logo, não é algo que me impressione, ou traga à tona boas lembranças – afinal, nem as tenho. Mas, desse respeito à identidade dos X-Men, algumas coisas se sobressaem mesmo para os menos íntimos com o universo mutante, como o real perigo das Sentinelas, as personalidades de cada personagem, e a convivência de diferentes vilões e parceiros num mesmo mundo. Algo que falta em X-Men Evolution, que trouxe uma proposta absolutamente nova e impactante para os mais antigos.

Comparar Wolverine e os X-Men e X-Men Evolution, aliás, é um dos esportes favoritos dos fãs. E mesmo não sendo um fervoroso, darei meu pitaco também. Eu prefiro X-Men Evolution. É tudo bem diferente, muitos dos X-Men estão na escola, e há  muitas distorções nas personalidades deles e dos inimigos, mas como entretenimento, X-Men Evolution funciona melhor. Tecnicamente é muito superior, e a identidade com os personagens é mais forte, mais marcante.

Mas isso é papo para outro post. Wolverine e os X-Men é o foco deste, então, falemos dele. Tecnicamente, o desenho é fraco. A animação é um passo atrás se comparada com a de X-Men Evolution (olha eu comparando novamente…), que, ironicamente, é bem mais antigo – o primeiro episódio foi ao ar em novembro de 2000. O traço do novo desenho é mais rígido e simplista, ao passo que o do desenho do início da década era rico em detalhes, inovador em técnicas de animação pouco usuais, e entregava um visual melhor, mais bonito e bem acabado.

O áudio, especialmente a dublagem brasileira, é sofrível. Exceto pelas vozes do Magneto e Wolverine (felizmente tiraram o dublador do Stallone do personagem), todas as demais são estranhas, bem fora do contexto, soam bastante artificiais. Os efeitos sonoros são bem medianos, e a trilha sonora praticamente inexistente. A trilha sonora de Evolution, composta por William Anderson, é primorosa, digna de super produção hollywoodiana…

Só falei mal de Wolverine e os X-Men até agora… O desenho é ruim? Não exatamente. A trama é bem amarrada, e apesar de algumas coisas que incomodam, como as viagens temporais do Xavier e o acompanhamento dos eventos do futuro, ela flui bem. Tem problemas crônicos de desenhos feito para crianças, como o fato do Wolverine nunca usar suas garras e mesmo nas brigas mais violentas não cair um pingo de sangue, mas isso passa. O foco em Wolverine às vezes enche o saco, e vê-lo tomando as rédeas da equipe é algo meio… impensável. Pior que isso só mesmo Scott pegando a moto do Logan e dando pití. Mais uma vez o líder nato dos X-Men é diminuído a um bebezão choramingando pela Jean Grey…

São 26 episódios, bem aproveitados e cheios de reviravoltas. Se não tiver nada melhor para assistir, vá sem medo.

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Trilogia X-Men.
Trilogia X-Men.

Dom Casmurro é melhor que Capitu

Capitu e Bentinho.

Capitu e Bentinho.

Ontem fui dormir uma hora mais tarde do que o de costume, e hoje, acordei às sete e meia – uma hora mais tarde do que o de costume. Essa avaria em meu cronograma diário deu-se por conta da estréia de Capitu, microssérie da Globo baseada na obra máxima de Machado de Assis, Dom Casmurro.

Dom Casmurro foi o primeiro “livro sério” que li na vida, quando tinha uns 13~14 anos. Antes dele, só livros da coleção Vagalume, que embora fossem (e continuem sendo!) divertidos, estão longe de serem grandes obras marcantes que a humanidade pariu. Essa posição pioneira em minha vida, somada ao fato de eu estar entrando na adolescência quando o li, cheio de amores platônicos, e à óbvia e indiscutível qualidade da obra, meio que fizeram com que o livro ganhasse um lugar especial em minha memória, exclusivo e à prova de qualquer outra coisa que viesse a ler dali para frente – como, aliás, acontece com quase todos que o lêem.

Sou um crítico convicto e ferrenho de novelas, mas meu apreço por Dom Casmurro é tão grande que dei uma chance à tal Capitu – não à moça de olhos oblíquos e dissimulados; à microssérie.

Então, ontem à noite, com um pouquinho de sono, confesso, assisti ao primeiro episódio. Vi um misto de teatro e TV, personagens bizarramente caracterizadas, algo beirando o cartunesco. Trilha sonora bacana (e eu nem sabia que existia uma banda chamada Beirut), uma forma diferente de se contar a velha e intrigante estória. Mas não funcionou.

Sinceras desculpas à galera que produziu e atuou, mas ficou uma droga. E não é nem pelo tom dramático-drogado-alucinógeno que a Globo adora empregar em qualquer coisa que fuja do lugar comum das novelas (e que eu detesto mais que essas), qualquer coisa que ela quer que vire cult. É pela descaracterização da sensibilidade que é a alma do livro. Por trás de um Bentinho já transformado em Dom Casmurro, que narra sua história de amor com Capitu amargurado, certo de que fora traído, percebe-se nas entrelinhas um afeto, um amor incondicional à moça. Ela é elevada a um altar, uma deusa no mundo do narrador. Em Capitu? Bentinho virou um narrador palhaço, com um tom de voz afetado, talvez condizente com o clima da obra, mas um chute no saco do Machado de Assis.

Foi-se a sensibilidade, e a troco de quê? De um clima que pode ser qualquer coisa, menos Dom Casmurro. Capitu talvez funcionasse como uma peça teatral, mas jamais como uma série. Aliás, acho que Dom Casmurro só funciona como livro. É uma experiência única, particular e que deve ser desfrutada através do jogo de palavras sobrenatural que só Machado de Assis consegue criar. Fugir disso é pedir para tomar crítica negativa.

Quer uma dica? Ignore os comentários positivos deslumbrados da maioria, e vá ler o livro, o original. É infinitas vezes melhor.

***

É triste ver o talento e a verossimilhança de Maria Fernanda Cândido com a Capitu que todos temos na mente serem mais uma vez desperdiçados numa tentativa pífia de levar Dom Casmurro às telas. Em 2003, ela estrelou, ao lado de Bruno Garcia e Marcos Palmeira, Dom, longa metragem baseado no livro que… bom, não ficou legal.

A quarta temporada de The O.C.

The O.C.: A quarta temporada completa.

The O.C.: A quarta temporada completa.

Foi com uma certa melancolia que, dia desses, inseri o terceiro disco do box da quarta temporada de The O.C. Afinal, seria a última vez que repetiria esse ato tendo por objetivo assistir um episódio inédito da série. Série esta que, apesar de descer a ladeira a partir da segunda temporada, ainda ocupa o posto de minha favorita.

A quarta e última temporada do seriado de Ryan, Seth e companhia é mais curta que as demais. Enquanto as três primeiras tinham, em média, 24 episódios, a última contém apenas 16. Dizem que foi planejado, outros que a série foi cortada no meio do caminho (e isso é bem provável), mas enfim, são só 16 mesmo.

(From now on, spoilers.)

Tudo começa aonde a terceira temporada termina: no acidente que culmina com a morte de Marissa, talvez a decisão mais estúpida de Josh Schwartz, idealizador e produtor da série. Não que ela seja a personagem mais carismática do mundo, mas sua saída desencadeou um desequilíbrio no quarteto principal (ou, agora, trio). Pois bem, o começo é praticamente um déja vù da terceira, só que substituindo Trey pelo Volchock. Ryan se isola, dá uma de Tyler Durden, mas após acertar as contas com o bad ass da temporada passada, que acaba indo para a prisão, volta a ficar em paz consigo mesmo – e à casa da piscina dos Cohen. Aí sim, a nova temporada começa para valer.

A morte de Marissa afeta alguns personagens, em especial a Summer, que vira uma pentelha ambientalista e ignora, de todas as formas, Seth. Felizmente, até o fim ela muda, e da mistura da Summer fútil com a Summer “Greenpeace” surge uma pessoa mais madura, algo que é mostrado com ênfase num dos (poucos) extras do pacote.

Seth é o personagem melhor trabalhado, acho eu. Nessa temporada, ele, no mínimo, foi mais aprofundado. Sua vagueza no mundo, do tipo “o que estou fazendo? Para aonde vou?”, é tocante, quase triste – é preciso, porém, que se leia tal situação nas entrelinhas. Senti uma certa identificação nisso com meu momento atual, e essa sensação pode ter afetado a opinião expressa no início deste parágrafo…

Ryan se envolve com Taylor, que passa a ser uma das protagonistas, no caso, “substituindo” Marissa. Taylor entrou bem na trama, ou melhor, passou de coadjuvante para principal com naturalidade. Só não foi perfeito porque, por melhor que ela seja, sempre fica a impressão de que a usaram como estepe da Marissa. Uma pena.

O clima da série volta a ser mais ameno, e isso me lembrou os tempos nostálgicos da primeira temporada. A segunda e terceira são muito pesadas, tensas, menos digeríveis. Só que, ao mesmo tempo em que essa última temporada traz de volta o tom descontraído da primeira, ela carrega outro tom, quase antagônico. Um quê de tristeza. Parece despedida, todo mundo preocupado, querendo se mostrar tranqüilo, mas com dificuldades para esconder as lágrimas, os temores.

O final, para variar, é ruim. Perderam a chance de fazer algo no nível do da primeira temporada, que considero um dos finais de temporada (de todas as séries) mais intensos e bem feitos de todos os tempos. No encerramento da série, há um fast forward muito rápido, desnecessariamente apressado, cheio de quadros quebrados, mostrando o que houve com os personagens alguns anos depois. E, no fim, Ryan, então um arquiteto formado (com a mesma cara de oito anos antes), resolve dar uma chance a outro loirinho-projeto-de-bandido, tal qual Sandy fez com ele. E fim!

Apesar dos pesares, a quarta temporada é melhor que a terceira, que é muito, mas muito fanfarrona mesmo. E fanfarrona no sentido nato da palavra, ou seja, quase caricata, forçada ao extremo, um desafio ao bom gosto dos telespectadores. É difícil se conformar com o fato de uma série tão promissora, com uma primeira temporada tão bem feita e arrasadora, acabar assim, de forma melancólica, no décimo sexto episódio… Valeu como final, e dadas as circunstâncias, foi digno até, mas poderia ter sido bem melhor.

Coisas boas? Sim, sim. O episódio do Natanuká é o segundo melhor de todos (perde para o da primeira). Nesse, Ryan e Taylor sofrem um acidente, e caem num “universo paralelo”, onde Ryan não fora adotado pelos Cohen. Ver como os personagens se desenvolveram (ou não, no caso da Summer) nesse contexto é interessante. Alguma queixa? Faltou o Luke ali – provavelmente não conseguiram convencer o Chris Carmack a fazer essa ponta. Nesse episódio, aliás, também se encontra o momento mais emocionante dessa temporada, a passagem no aeroporto, quando Ryan espera a chegada de Marissa, e… bem, vejam por si mesmos :) .

Momento emocionante.

Momento emocionante.

Piadinhas indiretas também estão presentes, como aquela da segunda temporada, em que Seth diz, através de analogias, que a então atual temporada é melhor que a primeira. Nesta, da quarta, Seth diz, indiretamente, que Chilli e Johnny são dois personagens que nunca deveriam ter existido na série:

Chili e Johnny, chatos e dispensáveis.

Chili e Johnny, chatos e dispensáveis.

Lembro de ter dado risada outras vezes enquanto assistia, o que significa que há outras passagens sutis como essa acima.

Foi bom enquanto durou, de verdade.

Californication

Não sou muito de acompanhar séries. Apesar da maioria ser legal, sempre acabou deixando de lado, acho que por preguiça. Das poucas que assisti nos últimos tempos, porém, a melhor, sem sombra de dúvida, foi Californication.

Hank Moody em seu Porsche velho e sujo.

Hank Moody em seu Porsche velho e sujo.

Californication não tem efeitos especiais, não conta com super astros, nem um roteiro mirabolante. Nada disso. É só a história de um escritor-de-um-livre-só, bêbado e com uma vida sexual bastante ativa, que tenta sair do fundo do poço e reatar com sua ex-namorada, mãe de sua filha. Simples assim. O que faz a série ser divertidíssima é justamente o life style do protagonista, Hank Moody, interpretado pelo surpreendente David Duchovny, que na década passada viveu o agente Mulder, em Arquivo X – série que nem fazia questão de acompanhar por pura preguiça.

O adjetivo “surpreendente” relacionado a Duchovny justifica-se pela diferença entre o personagem atual e o da série de ficção científica de anos atrás. Alguns mais desavisados podem até pensar tratarem-se de duas pessoas diferentes, tamanha a distância entre as duas atuações. Ele rouba a cena em Californication, seja pelo tom absurdamente despretensioso de Moody, seja pelas atitudes non sense do mesmo.

Californication não se resume apenas a Duchovny, porém. O seriado, criação de Tom Kapinos, pega um tema que à primeira vista pode parecer desinteressante, e o faz divertido e profundo. O elenco de apoio também é deveras competente; rola uma sinergia rara de ver em primeiras temporadas com o de Californication. Tudo isso, somado, resulta numa série fenomenal.

A primeira temporada teve apenas doze episódios, em parte graças à greve dos roteiristas, que atingiu todas as séries ano passado. Apesar disso, essa dúzia foi mais que suficiente, a ponto de eu arriscar dizer que, se fossem mais, talvez o ritmo e a qualidade dos episódios fossem afetados. A segunda temporada começou recentemente nos EUA, e a julgar pelos dois primeiros episódios, que já assisti, o nível continua alto, mesmo levando em conta o desfecho da primeira, bem delicado de ser tratado numa segunda temporada.

Não recomendável para crianças, mas altamente indicada para quem gosta de um bom seriado com temática mais adulta, Californication é uma das melhores séries que apareceram nos últimos tempos. Ok, talvez seja exagero de alguém que não é exatamente um consumidor ávido de seriados, mas a julgar pelos poucos outros que assisti (Greek, Heroes e Pushing Daisies), Californication é, de longe, a melhor dentre elas.

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Californication, de Tom Kapinos.
Californication, de Tom Kapinos

Explicações sobre Dragon Ball AF

Dragon Ball é um lendário mangá criado por Akira Toriyama. Publicado por mais de uma década, ganhou uma versão em desenho animado na TV que, se não foi o mais difundido no mundo, um dos mais foi, sem dúvida. O roteiro gira em torno de Son Goku, um sayajin (alienígena) enviado à Terra para destruí-la, mas que em virtude de um “pequeno acidente” (ele cai de um penhasco, e bate a cabeça no chão – entendeu as aspas?), esquece sua missão, e passa a proteger nosso querido mundinho com todas as suas forças. Hoje é difícil encontrar alguém que nunca tenha ao menos ouvido falar desta série. Assisti todos os episódios da saga Z, que mostra Goku adulto, e li e tenho todos os mangás, em perfeito estado de conservação (um dia ainda os venderei por uma quantia milionária).

Embora na TV haja a divisão entre Dragon Ball e Dragon Ball Z, no mangá original não. É tudo a mesma história, sem interrupções ou mudanças de nomenclatura. Depois do término do mangá, alguns pupilos de Toriyama, com anuência deste, criaram o horrível Dragon Ball GT (Gran Tour), uma tosquíssima e viajada seqüência, com Goku voltando a ser criança, super sayajin nível quatro, e mais um monte de besteiras. Sujou a até então imaculada série, e embora existam doidos que tenham gostado dessa merda, tal série não passa disso, uma merda.

O problema é que fanboy é uma desgraça, e um dos males do mesmo é não saber quando algo já deu o que tinha que dar. Dragon Ball atingiu seu ápice no final da série Z. Era um desfecho esplêndido para um anime longo, revolucionário e cativante. Melaram tudo com o GT e, não satisfeitos, alguns fanboys resolveram criar e disseminar uma nova série: Dragon Ball AF.

Se no GT coisas sem noção já haviam sido criadas, no AF o nível desce ao fundo do poço. A própria imagem que desencadeou os inúmeros boatos sobre esta inexistente série já mostra isso: Goku super sayajin nível cinco. É tosco.

Goku super sayajin 5.

Suposto Goku Super Sayajin nível 5.

AF significa “After Future”, ou “Another Future”. A lenda acerca desta fictícia série começou em 1997, logo após o fim da GT. Nessa época, porém, não havia nomes, nem imagens: apenas o rumor pairava no ar… Em 2000, o fanart acima foi disponibilizado, desencadeando uma verdadeira febre em torno das “novas” aventuras de Goku e cia. No mesmo ano, em outubro, um documento extenso sobre AF surgiu no (hoje fora do ar) majin.com. Alguns anos mais tarde, em 2004, a “prova” que faltava para afirmar a “veracidade” da série apareceu: um pôster de divulgação.

Dragon Ball AF (mini).

Página fake!

O engraçado é que, segundo fontes, esses caracteres japoneses não significam absolutamente nada :D . Quem não entende japonês (chute: 90% da população), acreditou. Este pôster é, na verdade, uma montagem feita no Photoshop.

Ainda hoje há quem defenda a existência de Dragon Ball AF. O argumento da moda é que a série foi produzida nos Estados Unidos (sic), motivo pelo qual só foi exibida em canais privados, de pouco alcance/audiência.

Não precisa muito para constatar que isso é lorota. Clique aqui, veja as imagens, e pergunte a si mesmo: alguém, em sã consciência, exibiria estes desenhos medonhos na TV? Nem mesmo o mais aproveitador e oportunista dos produtores de TV faria isso.

Para que fique bem claro:

Dragon Ball AF non ecziste!

A quem souber espanhol (portunhol já quebra o galho), recomendo a leitura deste ótimo artigo, que inclusive serviu de base para este meu. Para saber mais sobre Dragon Ball, a entrada na Wikipédia inglesa e suas ramificações são ótimas fontes de informações. E, finalmente, para quem quiser entender os motivos que fazem de Dragon Ball um dos maiores ícones culturais de todos os tempos, procurem em algum sebo a revistinha Herói Mangá #01, da editora Conrad, lançada em abril de 2002. Nela há um texto cujo título (tosco, confesso) é Dragonball Z: além da porrada!, escrito pelo grande Mario AV, que guardarei para mostrar aos meus filhos, logo após apresentar-lhes minha coleção de mangás (só a venderei depois disso). Esta revistinha, aliás, era ótima: nesta mesma edição há uma matéria magnífica sobre outro blockbuster japonês, Evangelion. Uma pena terem cancelado ela tão precocemente (só durou três edições).

Eu li Requiem!

Calma, eu explico. Requiem é o último episódio, que não chegou a ser rodado, de um dos desenhos mais legais de todos os tempos: Caverna do Dragão.

Caverna do Dragão está para os desenhos assim como Chaves está para os programas humorísticos: nunca sai de moda. Mesmo assistindo a todos os episódios várias vezes, e sem expectativas de que a série chegasse ao fim algum dia, este desenho sempre figurou entre os meus favoritos.

Pra quem não conhece (alguém?), Caverna do Dragão é uma aventura baseada no RPG Dungeons & Dragons, que por sua vez, é explicitamente baseado na obra de J. R. R. Tolkien, que dentre outros, escreveu a trilogia O Senhor dos Anéis. O desenho narra as aventuras de seis jovens num mundo paralelo, o qual eles chegaram graças a um portal que se abriu num parque de exposições (talvez isso explique meu medo de rodas gigantes). Estando lá, começa uma busca desenfreada pelo portal, de modo a voltarem para casa. Eles recebem a ajuda do Mestre dos Magos, um velhinho enigmático, que some nas horas mais inoportunas, e dá os conselhos mais estúpidos de todo o Universo, e encontram inimigos de peso, como o dragão multicolorido Tiamat, e o temido Vingador, o cara de um chifre só. Ah, tem a Uni também, um(a) filhote de unicórnio que enche o saco de todo mundo.

Baseado no que andei lendo, o desenho teve três temporadas. Depois de inúmeras tentativas frustradas de voltar para a casa, quando finalmente o roteirista consegue escrever um episódio em que os pobres diabos atingem seu objetivo, o maldito estúdio que produzia o desenho fez o favor de não tornar realidade o sonho de todo moleque nos anos noventa, que era ver o fim de Caverna do Dragão. Realmente, esses caras têm que morrer (os do desenho): vão ser azarados assim lá longe! Pois bem, este episódio, o último, o final, o derradeiro, chama-se Requiem.

Consegui ter acesso ao “script” dele num site obscuro que encontrei por acaso dia desses. Enfim, a história é legal, faz jus a toda a magia da série, e seria um final estupendo, caso fosse produzido, claro.

Há toda uma mítica em torno do final da Caverna do Dragão. Desde os anos oitenta (imagino eu), há uma especulação forte em cima disso. E tal qual um telefone sem fio, inúmeras versões surgiram. Uma das mais legais, e que eu sempre torci para que fosse verdadeira, é a de que a Uni, o unicórnio andrógino, fosse uma entidade demoníaca que discretamente fazia o papel de pedra no sapato da trupe. Infelizmente, não é assim. Há outras versões, como já disse, sendo as mais famosas aquelas que dizem ser algum dos mocinhos um enviado do capeta. Povo mais macabro…

A partir de agora, para delírio dos fãs da série, escreverei um spoiler do último episódio. Se não quiser ler, ahn… pare de ler.

Ok, faz algumas semanas que eu li, então, pode ser que eu esqueça algum pedaço. Mas o grosso da coisa eu lembro, tranqüilamente. O capítulo começa com os mocinhos lutando contra um dragão. Paralelamente, Mestre dos Magos e Vingador conversam, chegando ao ápice de firmarem um acordo entre si, que tinha a ver com a volta para casa dos garotos. Depois, Mestre dos Magos aparece e, mais uma vez, não ajuda, mas além disso, ele despreza os garotos. Eric, o cara da capa vermelha e do escudo, fica bravo, e depois de muita discussão, o grupo racha, sendo que uma parte é comandada pelo Hank, e outra pelo Eric. A certa altura, quando os dois grupos se encontram pelos caminhos da vida, eis que o Vingador surge. Ele oferece um caminho de volta para casa, sendo que, para tal, devem os jovens perdidos irem até um castelo, pegarem uma chave e abrirem um portal. Eric acredita e vai em frente; Hank não, mas por precaução (eu acho), vai atrás do grupo de Eric.

Já no castelo, uma meleca ultra-poderosa (!?) os ataca. Depois de muitas brigas, Hank e Eric estão com a chave na mão. Há um portal no centro de uma sala, e do lado, a parede destruída revela um desfiladeiro. O Vingador aparece também, e no meio da bagunça (garotos, meleca poderosa e Vingador), Hank cai no penhasco. Eric, com a chave na mão, tem a opção de abrir o portal, que na verdade, se não me falhe a memória, era uma espécie de túmulo com o desenho de um cavaleiro, ou jogá-la no desfiladeiro, coisa que Hank queria fazer. Ele escolhe a segunda opção, e tcharam! O Vingador se transforma num cavaleiro bacana, aquele cavaleiro desenhado no túmulo. Mais surpreendente que isto, ele se revela filho do Mestre dos Magos!!! Isso foi realmente impactante. Fica a impressão de que o Mestre dos Magos usou os garotos pra libertar seu próprio filhote. (Que meigo, snif). Por incrível que pareça, Hank não está morto! Ele conseguiu se segurar, e volta pra cima. Tudo esclarecido, finalmente um portal que funciona está na frente dos garotos! Mestre dos Magos deixa a opção no ar: ou eles voltam para suas casas, na Terra, ou continuam lá, ajudando ele, e agora também o Vingador, a combater os males que assolam aquele mundo (segundo o velhinho, são muitos ainda).

O episódio termina aí. Parece que foi uma estratégia do roteirista, já que não se sabia, na época, se haveria uma nova temporada do desenho, ou não. Ou seja, se houvesse, o pessoal continuaria naquele mundo; caso contrário, o desenho terminava ali mesmo, e ponto final.

Particularmente, achei este final muito bom. Nada que não fosse previsível, mas ainda assim, ficou legal. Será que algum dia ainda veremos essa obra prima materializada? Torço para que sim.