
Houston, we have a problem!
O português é um belo idioma. Difícil como poucos, e justamente por causa dessa dificuldade, que expande as possibilidades e capacita a transmissão de ideias com muita precisão – inclusive depois da reforma ortográfica, temos um idioma rico, complexo e bonito. Nunca fui um estudioso profundo dele, mas sempre me ative para, na medida do possível, fazer bom uso, não castigá-lo como muitos fazem, deliberadamente, na Internet.
Apesar dessa admiração, não sou extremista. Em nada. Extremismo é um saco, se duvidar, nem os próprios extremistas se aguentam e talvez por isso virem homens bomba. Vez ou outra me deparo com alguns assim, os libertadores do português puro, nos outros blogs que mantenho. Como esses têm relação com a informática, termos em inglês, importados, são relativamente comuns. Mas não para os justiceiros do Aurélio.
A questão é que, por mais que eu queira e dê preferência ao nosso vernáculo, algumas coisas são impossíveis de serem traduzidas. Como eu traduziria, de forma simples, mantendo o sentido e sem me alongar muito, “release candidate”, um dos estágios do desenvolvimento de um programa? “Candidato a lançamento”? Soa estranho; “liberação prévia”, como sugeriu um leitor? Deturpa o sentido da expressão original; alguma outra? Não consigo imaginar. Então, fica “release candidate”, mesmo sob protestos de alguns.
Há uma espécie de briga entre os puristas e liberais, mas a verdade é que o meio termo prevalece, independente de leis, imposições ou protestos em blogs de informática. O idioma não é uma entidade morta, ou passível apenas de mudanças bem estudadas, debatidas e publicadas. O idioma é vívido, muda no dia-a-dia, com a popularidade das palavras vindas de fora. Exemplo? O famigerado scrap, que caiu no gosto do povão graças ao orkut, e tamanho sucesso fez que já inspirou até o nome de um celular cujo principal atrativo é um teclado para escrever… scraps.
Bom senso é sempre ideal, e querer lutar contra esse tipo de evolução é dar um tiro no pé. É importante preservar o idioma, mas vedá-lo contra invasões estrangeiras, especialmente no mundo globalizado em que vivemos, é tolice. Quando sento na cadeira, abro o editor de textos, e me coloco a escrever, o objetivo primordial é que todos entendam o que quero transmitir. A escrita é pura e simplesmente a fala sintetizada, colocada n’outro plano para facilitar sua propagação. Se a maioria dos leitores é familiarizada com termos estrangeiros, o que justificaria a tradução inadvertida deles? Patriotismo? Reserva linguística? Teimosia?
O que incomoda são os excessos. Mas isso é papo para outro texto. See you later (e, sim, isso foi uma provocação
).




