Terça-feira o The Wall Street Journal publicou uma matéria falando sobre bloggers full time, ou em português, blogueiros (detesto esse termo) que trabalham em período integral. Segundo a reportagem, essa “classe” tem crescido muito, e já é maior que a dos bombeiros e programadores, e está perto da dos advogados. A reportagem ainda chama a atenção para a porcentagem de bloggers americanos que vivem de seus blogs (2%, algo perto de 500 mil pessoas), e as implicações dessa mudança comportamental na vida dos outros e na dos próprios bloggers.
Alguns pontos que poucos pensam quando o assunto “ganhar dinheiro com blogs” vem à tona são comentados nessa reportagem também. Questões de ética, (falta de) formação técnica, seguridade social, dentre outras coisas. Pelo tom do texto, há um misto de empolgação e preocupação. Na última CES, segundo o WSJ, a Panasonic distribuiu produtos para bloggers. Até que ponto isso afeta a reputação e credibilidade deles? No Brasil, houve algo parecido no final do ano passado, quando a LG levou um grupo de bloggers para o litoral e distribuiu celulares para todos. Como fica?
Essa questão já foi amplamente debatida em todos os cantos da Internet brasileira, sem que se chegasse a um consenso. E, na boa, pouco importa. Cada um colhe o que planta, logo… O interessante da matéria do WSJ é a ênfase na dificuldade e nos empecilhos que a “profissão” blog implica. Alguns grandões manifestaram-se prontamente após a publicação, como Darren Rowse, autor do ProBlogger. Ele ainda pegou leve, ao contrário de Penelope Trunk, bem mais cruel e, sob certo aspecto, realista. Ela termina seu texto dizendo:
Então, se a ideia é que o blog o deixará rico: esqueça-a. Suas chances de conseguir isso são mínimas, enquando suas chances de ganhar outros benefícios através do blog são muito altas. Então blog, sim, e faça isso para alcançar suas verdadeiras metas, não apenas as financeiras.
Rowse discorda de alguns pontos levantados por Trunk, como a necessidade de vir ou ter algum vínculo com a mídia. Ele cita a si próprio como exemplo, mas pondera:
(…) mas precisa de muito trabalho e leva muito tempo.
Leva muito tempo mesmo. E às vezes mesmo com todo o tempo do mundo, a coisa não flui. Os motivos podem ser vários, desde inaptidão para com a escrita, até falta de sorte mesmo. Não estar no lugar certo e na hora certa, essas coisas.
O sucesso absoluto também é perigoso. A matéria cita problemas de saúde, estresse e outras mazelas proveniente do trabalho em excesso. No Brasil isso ainda é raro, mas lá fora, por exemplo, Gina Trapani, fundadora do conhecidíssimo Lifehacker, deu um tempo em sua cria para respirar novos ares. Ela é uma das bloggers mais bem sucedidas e exemplares que eu acompanho, e a tomo como exemplo a ser seguido. Até mesmo nesse aspecto, da saúde mental, afinal, deixar a liderança do Lifehacker deve ter sido uma decisão deveras difícil, porém necessária – segundo os critérios dela.
O blog é uma poderosa ferramenta, compatível com qualquer área do conhecimento humano. Gosta de Direito? Crie um blog jurídico. Gosta de tecnologia? Crie um (mas esteja ciente que o nicho está bem saturado). Curte jardinagem? Há espaço, também. Não só essa compatibilidade universial é atraente, mas também a força que o blog pode ter. Nas palavras de Mark Penn, do WSJ:
Se os jornalistas são o Quarto Poder, os bloggers estão virando o Quinto Poder.
E de fato têm capacidade para serem o Quinto Poder. Só que não é a ferramenta que dá esse poder, mas quem a utiliza. Não sei como é lá fora, mas no Brasil há uma tendência a aglutinar blogs como sendo uma coisa só, quando, na realidade, o blog, em si mesmo, não é nada. Ou melhor, é apenas uma ferramenta. Trace uma analogia com um pincel e uma tela. Nas minhas mãos, o resultado seria alguns rabiscos sem nexo e feios. Nas do Picasso, um quadro de valor inestimável. Vê como é? Blog está disponível a qualquer um. O que faz a diferença não é o simples fato de ter/escrever num blog, mas sim o que se escreve no blog.
O dado mais curioso é a média salarial de grandes blogs. Segundo a reportagem, embasada pelo Technorati, um blog que tem 100 mil visitantes únicos por mês gera U$ 75 mil por ano. Ah, se isso fosse a realidade no Brasil…





